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A Elegância do Ouriço – Muriel Barbery

06/09/2016

elegancia do ouricoPublicado originalmente em 2006, A Elegância do Ouriço, da franco-marroquina Muriel Barbery, é uma grata surpresa da literatura contemporânea. O sucesso espontâneo que o livro obteve junto ao público e crítica exemplificam bem o porquê dele ser considerado um dos grandes romances dos últimos anos. Em 2008, o livro chega ao público brasileiro pelo prelo da Companhia das Letras, traduzido por Rosa Freire d’Aguiar, e cativa os leitores tupiniquins.

As razões para a boa receptividade desse trabalho de Barbery são inúmeras. Seu livro é gracioso, inteligente e emotivo. Ao relatar os movimentos dos moradores de um elegante prédio num bairro nobre de Paris, Muriel Barbery insere os mais díspares perfis no mesmo espaço: uma zeladora culta – que esforça-se para passar desapercebida; uma adolescente que vivencia uma crise existencial profunda; um crítico gastronômico preste a morrer – Pierre Arthens, personagem que ganhou uma história própria no romance A Morte do Gourmet; uma faxineira portuguesa com ares de quem crê ter nascido para fidalguia; um gentil senhor japonês envolvido em misteriosas atividades. O leque das personagens que transitam por todo o romance é vasto, curioso e elucidativo.

O romance é narrado a quatro mãos, por Renée e Paloma. A primeira, uma concierge reclusa, pensativa e sempre com conclusões certeiras a respeito de suas observações dos moradores do prédio que zela e da vida; ela é culta, lida dos clássicos – tem predileção por Dostoiévski e Tolstói -, e profunda conhecedora da tradição filosófica. A segunda, é uma adolescente calada e pensativa, que planeja seu suicídio ao completar treze anos; sua voz é apresentada por meio de dois diários que alimenta: um sobre “Pensamentos profundos”, onde vai desfilando suas reflexões sobre os casos familiares e do cotidiano que lhe caem às mãos e o outro é o “Diário do movimento do mundo”, em que vai refletindo sobre as grandes questões da humanidade. Ambas personagens carregam uma carga forte de intelectualidade. Mesmo Paloma com apenas doze anos é capaz de formular grandes pérolas do pensamento e ser vasta conhecedora do mundo – apesar das óbvias limitações da idade. Já Renée, impressiona pelos contornos irônicos e sagazes que o seu autodidatismo proporciona. Entendida de literatura, filosofia, sendo admiradora de Kant e de Marx, ela precisa recrudescer para não ser notada. Assim como o ouriço, ela forja uma aparência que repele, para que não lhe descubram o conteúdo.

Contudo, esse conteúdo é penetrado pelo novo inquilino que chega ao prédio rodeado de mistérios. O sr. Ozu percebe o disfarce de Renée e brinca com suas reações, como ao citar inesperadamente um trecho de Anna Karenina de Tolstói e ver que a concierge desconcerta-se ao reconhecer a citação. Nesse jogo de intencionalidades, Barbery mostra um pleno domínio da arte de narrar. Ao dar voz a Renée, a escritora deixa fluir uma vazão profícua de reflexões sobre as grandes questões da humanidade. O romance que compõe sempre está com um pé nos temas filosóficos e mesmo flerta com temáticas freudianas ao falar sobre o conjunto de pulsões e repressões que o homem contemporâneo imprime sobre si, e de como usa a Arte para dar vazão às suas pulsões mais primitivas.

O romance de Barbery pode ser facilmente lido como um enredo filosófico – o flerte com o estilo do ensaio é uma constante durante o percurso da obra. Toda a narrativa é atravessada pelo signo da reflexão. Nisso Muriel Barbery mostra que soube fazer a lição de casa. Tanto em seu A Morte do Gourmet quanto neste A Elegância do Ouriço ela transita com muita desenvoltura e fluência em temas pesados, e com domínio técnico. Não se deteve em resumos, fez bem sua pesquisa e soube transformar assuntos densos em fluídos na narrativa que compõe. As 350 páginas do romance caminham num fluxo permeado de técnicas narrativas seguras e bastante contemporâneas – há capítulos de apenas uma frase e que, mesmo assim, são importantes para a composição geral do romance. No trabalho que se propõe, Muriel não se deixa levar por uma fácil prepotência que poderia incorrer ao tratar de certas temáticas no texto. As informações que vão pulando durante a leitura aparecem de forma espontânea, longe qualquer resquício professoral. Há ali, no caminhar das páginas, uma aula de arte, filosofia, história, beleza, tempo e eternidade.

Nesse caminho, a leitura da obra de Muriel Barbery é um chamado para uma reflexão sobre a vida. O enredo flui para um final que pode trazer alguma decepção para leitores apegados à personagens, contudo não poderia se dar de outra forma ao se pensar que toda a trama orbita em torno de um desfecho existencial como o que o fim do romance traz. Porém, não é um romance sobre o fim, mas sobre a vida e como ela pode ser potencializada por via mais nobres e profundas, como a arte e os livros.

One Comment leave one →
  1. Luna Gorayeb permalink
    22/11/2016 12:41

    Você me indicou há um tempo esse livro. Li agora e achei maravilhoso! Obrigada pela indicação, querido❤

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