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O Adulto – Gillian Flynn

07/09/2016

o-adulto-corpoUma jovem especializada numa modalidade de trabalho pouco usual: masturbadora profissional. “Parei de bater punheta para os outros não por ser boa. Parei de bater punheta por ser a melhor”. Eis a frase de abertura da narrativa curta da norte-americana Gillian Flynn. Essa jovem que precisou aprender os trejeitos da sobrevivência dos mais espertos e aptos nas ruas, aplicando pequenos golpes durante a infância e adolescência, é a narradora de O Adulto – publicado pela editora Intrínseca com tradução de Alexandre Martins. Depois desse percurso pelas ruas, ela calha de exercer a profissional que oferece resultado rápido e com pouco envolvimento, apesar da clientela fiel e variada. A narradora é uma típica personagem de Flynn: irônica, inteligente, sagaz e com tino para ler os sinais que as pessoas indicam ao conversar com ela.

Com problemas no punho por causa do exercício de sua profissão, que se dava nos fundos de uma Casa de Tarô, ela passa a atender, por exigência de Viveca — sua excêntrica patroa —, as demandas de adivinhações do lugar. Habilmente treinada nas ruas na arte de aplicar mentiras, a protagonista não vê muita dificuldade em atender o público da casa, composto basicamente de mulher ricas e estúpidas. É sob essas circunstâncias que encontra Susan Burke, mulher bem afeiçoada e rica da região que lhe vem, meio que a revelia, trazer suas dificuldades muito específicas. Enxergando nisso uma oportunidade de faturar, a falsa vidente masturbadora logo armar-se de seus truques fajutos para tentar enganar Susan o máximo de tempo que for possível. Vai até a sua mansão, um bangalô antigo modernamente reformado na área interna, que carrega uma suposta maldição. É aí que as coisas mudam de tom.

Começando o livro com um exagerado tom irônico e bem humorado, Flynn monta, nessa virada do enredo, um conjunto de atividades estranhas que passam a acontecer e a narradora, antes dona de si e de suas artimanhas, vê-se confusa com o percurso que as coisas tomam. O livro passa a ser preenchido por suspense. Dois irmãos aparecem na trama; sendo que um deles é o possível pivô de todas as estranhezas que a casa apresenta. A casa, moradia de uma antiga família, que foi protagonista de um sangrento episódio — segundo algumas rápidas pesquisas na internet que a narradora faz —, parece ter vida própria e não aprova a presença charlatã da falsa vidente. Nesse emaranhado de situações, Flynn não perde o fio da meada em nenhuma linha. Narrando em primeira pessoa, a vidente atordoa-se junto com o leitor. Nem mesmo ela sabe no que acredita e, à medida que tudo se complica mais ainda — para ficar num exemplo: um dos clientes da masturbação da vidente é o ausente esposo de Susan —, o leitor acompanha tudo aparvalhado, também sem boas, ou mesmo com uma, conclusões.

Assim como em Garota Exemplar, em que fala dos meandros da falsidade de um casamento e suas bases, e em Lugares Escuros, sobre as linhas falseadas da memória e do afeto, neste conto, Gillian Flynn brinca com o jogo de aparências e toda pista que ela finca no meio do caminho, pode ser apenas um falso sinal, um alarme mentiroso. Tudo isso com o seu habitual domínio do diálogo com o leitor, sempre prevendo também suas reações. Ainda que tenha sido amplamente vendido como uma história de terror, O Adulto fica mais no campo do suspense e não avança muito mais do que isso. Rápida, a história é um excelente sinal de que Flynn sabe bem do ofício que exerce: sem pretensões de tornar-se um clássico ou “alta literatura”, escreve para um público jovem, porém não estúpido. Ela não subestima seus leitores; ao contrário, faz um jogo de cumplicidade em que os pequenos — ou grandes — segredos de seus personagens tornem-se confidências entre eles e quem lê. Por isso a leitura de seus trabalhos é divertida e tem um certo quê de empolgante, excelentes para acompanhar tardes preguiçosas de um final de semana. Neste seu conto mais recente publicado por aqui, se tem a confirmação disso: ler Flynn é uma quase garantia de boas horas acompanhado de uma história que está bem longe de ser tediosa. Recomenda-se.

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