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A Invenção de Morel – JP. Mourey e A. Bioy Casares

13/09/2016

1corpoainvencaodemorelUm fugitivo condenado à prisão perpétua pela Justiça chega sozinho a uma ilha deserta. Nos primeiros dias crê estar só na ilha, que não apresenta nenhum sinal de ocupação por outras pessoas, com exceção de algumas construções abandonadas. Contudo, passado alguns dias, depara-se com alguns veranistas finamente trajados que espalham-se pela ilha, um amplo complexo de construções, com máquinas imbricadas e de aspecto tecnológico avançado. Estranhando essas presenças inusitadas, o narrador da história passa a observar, à revelia, seus passos e percebe alguns padrões comportamentais se repetindo, como se todos os diálogos travados entre eles fossem ensaiados. Intrigado com essa repetição milimetricamente orquestrada, e influído por uma paixão cega pr uma das veranistas, o protagonista vasculha a labiríntica mansão instalada no meio da ilha e depara-se com a resposta para suas dúvidas. É então que um inteligente e imbrincado invento, criado pelo personagem Morel, desvela-se, colocando-o numa situação de escolha: quebrar com aquela perpetuidade ou mantê-la.

O resumo, obviamente, não faz jus ao poder que a obra de Adolf Bioy Casares detém. Publicada pelo até então desconhecido auxiliar de Jorge Luis Borges, na década de 1940, a obra de Casares foi um marco inaugural na narrativa fantástica latina abrindo possibilidades narrativas sem precedentes nas letras de língua espanhola e firmou-se indiscutivelmente como sua obra-prima. Obra cultuada entre os amantes da ficção científica, o trabalho de Casares é um dos poucos a ter uma referência assim de um escritor do calibre de Borges, que sobre ela afirmou: “Discuti com o autor os pormenores da trama, e a li repetidas vezes; não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole qualificá-la como perfeita.”

Uma obra que por si carrega uma imensa força de qualidade e tem sua marca registrada na história da literatura é um desafio para quem se propõe a adaptá-la para outras plataformas narrativas. Ela inspirou trabalhos como O ano passado em Marienbad de Alain Resnais e o seriado de televisão Lost. Usando o dispositivo narrativo dos quadrinhos, o francês Jean Pierre Mourey – que curiosamente tem um sobrenome foneticamente semelhante ao de Morel – adaptou a obra de Casares com a devida preocupação em não distanciar-se das linhas da obra original. O traço difuso, de linhas imprecisas, mantém também a liquidez da narrativa; nos diferentes períodos da história, o quadrinhista encontra como solução o uso de distintos jogos de cores, como a exemplificar a condição psicológica em que os personagens e a história se encontram; a mesma preocupação se dá no uso das fontes, dos contornos e da disposição dos quadros no decorrer da narrativa. A adaptação não peca e não perde o viço das linhas escritas por Casares. Mas vale ter em mente que é uma adaptação, é uma reformulação de encaixe para outro recurso narrativo. A sua leitura vale como curiosidade e não fecha-se como forma de análise da obra de Casares, que só pode ser contemplada em toda sua força nos moldes originais, de um livro, um trabalho literário clássico. No entanto, é uma boa oportunidade de ver as personagens tomarem forma e ganharem outro sentido de vida ao serem desenhadas. Por isso, e não muito além disso, a adaptação em quadrinhos feita por Mourey possui méritos e valha a pena.

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