Skip to content

A Viagem Vertical – Enrique Vila-Matas

20/09/2016

1corpoviagemO protagonista do romance a máquina de fazer espanhóis do português Valter Hugo Mãe define a velhice, esta derradeira etapa da vida, como um processo de retorno, em que desaprende-se ao invés de aprender, o que “faz todo sentido que assim seja para que nos afundemos na iminência do desaparecimento”, diz. É nesta idade terceira em que há o deslumbre — ou mesmo ilusão — de que a vida deva acalmar-se, que tudo que poderia ter sido feito já o foi e a espera do encontro com o fim é apenas uma questão de tempo; que o que deveria ser aprendido já aconteceu e que a viagem dessa existência deva chegar às suas últimas linhas muito em breve.

Era dessa forma que Federico Mayol já enxergava o seu percurso por essas etapas da vida. Bem sucedido, dono de uma farta gama de bens provindos da sua empresa de seguros, e ex-parlamentar do partido nacionalista catalão, Mayol nunca viu-se ocupado com questões intelectuais, jamais se viu interessado em assuntos que não fossem estritamente práticos. Estava ele no melhor que a zona de conforto pode oferecer. Essa vida confortável e encaixada na rotina dos findos dias é alterada de forma abrupta por Julia, sua esposa, que o expulsa de casa, pede a separação definitiva sob a justificativa de querer conhecer a si, de não mais viver na resignada função das necessidades do marido.

“Essa casa é a minha solidão. A partir de hoje o será para sempre. Não quero mais vê-lo dentro dela.”, é assim que Julia põe fora Mayol de sua casa. Ela queria poder descobrir-se; saber como é viver para si, e estar mergulhada em si, numa nova avalanche de experiências que a enriquecesse como pessoa. Ironicamente o leitor não fica a par do que acontece com ela no passar do romance — sua participação encerra-se ali, nas primeiras cenas; contudo, com uma dose ainda maior de ironia, ela empurra o ex-marido para a experiência de estar em envolvido consigo. É aqui que a vida de Mayol, que dela não esperava mais novidades, toma rumos completamente insuspeitados.

Vendo-se diante do desconhecido quando cria ter conhecido tudo da vida, Mayol identifica então seu principal ponto fraco: sua extrema ignorância cultural e intelectual. O oposto de Julián, o prepotente filho de Federico, artista da família que vive enfurnado em seu ateliê produzindo suas obras. Mayol vive em estado conflito a respeito desse filho, pois vê nele um desperdício do seu investimento ao mesmo tempo em que percebe nele características que gostaria de compartilhar. Nesse conflito entre Julián e Mayol exemplifica-se também um conflito entre duas imagens: a do prático, que agarra-se em seu pragmatismo dinâmico e do artista, ou ainda daquele que vê na arte a digna forma de enfrentar as vicissitudes da vida. Na ironia de Vila-Matas, não se diz em claras letras quais dos dois possuem mais importância, enquanto há no paralelo da história de Mayol a identificação de uma realidade: não se pode pender apenas para um desses lados.

É a explosão de Julia que põe todas as seguranças de Mayol em colapso e o impulsiona a entrar na viagem que o livro usa em seu título. Já desvencilhado das amarras cômodas da zona de conforto em que estava, e com poucas restrições orçamentárias, Mayol empreende uma excursão que o irá pôr diante de todos os seus medos. É, no fundo, uma viagem vertical para dentro de si. As descobertas que faz nesse percurso enquanto transita em cidades cada vez mais isoladas e depara-se com personagens que vivem também seus desafios — e em paralelo também descobre que seu filho mais velho, o orgulho da família, não passa de um frustrado, a filha de uma adúltera e por aí vai —, Mayol revigora-se a ponto de perceber-se outro depois de ter julgado que tudo iria para o ralo existencial.

Todo esse percurso é acompanhado pelo melhor que a prosa de Enrique Vila-Matas sabe oferecer em suas mais fortes características: o nonsense, a ironia, as inúmeras referências literárias e a sua poderosa metalinguagem. O acaso é o carro-chefe do romance, chegando a transfigurar-se como personagem da trama, de tão imbricado que está no desenrolar dos acontecimentos do enredo. A viagem de Mayol se transforma também na viagem do leitor, que acaba por viver junto com o protagonista as mutações e descobertas pelas quais ele passa.

É nessa viagem que Mayol enfim se permite à oportunidade de aprender sobre si através do contato que perdera com o mundo do lado de fora das linhas falseadas de um casamento sustentado em bases hipócritas, no seu trabalho maquinal, na sua relação fria com os filhos e no seu ofício de parlamentar. Nesse afundar em si que aprende que “era muito belo afundar”.

Entre as interpretações necessárias durante a leitura de A Viagem Vertical (Cosac Naify, 2004. Tradução de Laura Janina Hosiasson), uma das que não larga o leitor no percurso do enredo é o da luta travada entre o destino e Mayol. E quem permite o equilíbrio desse conflito é o acaso, com sua presença a traçar as melhores cenas do romance. O destino de Mayol estava, segundo sua própria forma de ver as coisas, delimitado; contudo, o acaso se fez presente e virou tudo de ponta cabeça e lhe possibilitou a chance dessa viagem vertical. Essa guinada na narrativa é característica cativa nas obras de Vila-Matas que consegue fixar o leitor até o final da leitura sem que haja qualquer resquício de enfado.

No final das contas a obra de Enrique Vila-Matas é sobre saber renascer quando essa possibilidade indica ser impossível. É sobre essa descoberta que o escritor deixa claro ao usar os seguintes versos do poeta William Carlos Williams, que foi uma de suas inspirações para compor o romance: “A descida seduz/ como seduziu a subida./ Nunca a derrota é só derrota, pois/ o mundo que ela abre é sempre uma parada/ antes/ insuspeitada.” E é essa literatura insuspeitada de lances e relances, de acasos e destinos, que faz desse romance de Vila-Matas — extremamente injustiçado no Brasil — uma leitura fundamental.

No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: