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Uma Casa na Escuridão – José Luís Peixoto

28/09/2016

corpoescuridaoOs limites da idealização do outro, em sentimentos amorosos, parece sempre ser gasoso, sem contornos muito bem definidos. O sentimento apodera-se do apaixonado, do amante, e quando se dá conta, as consequências do sentimento — impulsionados por uma perspectiva romântica — já não se suporta sob qualquer limite da racionalidade. Nesse romance do português José Luís Peixoto, encontramos um escritor sem nome que narra a história de sua vida e de um amor que nutre por uma musa que nunca chega a dar as caras durante o enredo. Sabemos da sua existência porque ele conta, repetidas vezes da sua presença, que faz morada dentro de si e de um poderoso texto que ele guarda consigo sob cuidadosa proteção.

O período em que a trama se desenlaça não fica claro. O narrador, dotado de uma voz compassada e afeito a expressões carregadas de efeitos visuais, conta ao leitor das suas aventuras, e vai nos apresentando sua história em sete etapas, que começam na fase mais apaixonada em que fala do amor, de como esse sentimento lhe preenche a existência, até chegar na morte, fim trágico de todo verdadeiro amante.

Nesse ínterim conhecemos alguns personagens, como sua mãe, o príncipe de calicatri — assim mesmo grafado em minúsculas —, a escrava que lhe serve, entre outros personagens que surgem no decorrer da história. O seu amigo príncipe lhe conta das aventuras que viveu pelo mundo e lhe diz de nações que foram invadidas, surrupiadas e levadas ao limite de sua existência. A tudo isso o escritor-narrador ouve com desatenção e desinteresse, focado apenas na musa que lhe ocupa o peito. O personagem é de característica relapsa, parecendo não importar-se com nada que não seja o amor que lhe preenche a vida.

A beleza e tranquilidade de sua morada muda por completo ao ser sua cidade invadida por estranhos soldados de armadura de ferro, barbas até a cintura, taciturnos e frios. É a partir de então que a narrativa adota as características de um realismo fantástico ferino, poético, cru e cruel. O narrador tem seus braços e pernas amputados, um dos companheiros é perfurado tendo que viver com um oco no lugar que lhe cabia o estômago, o príncipe de calicatri tem seu coração tirado, o violinista da família tem suas mãos cortadas, sua mãe perde a língua e a escrava é a carne que abastece o apetite sexual dos soldados. Nesse cenário de caos e exagero, é que o grupo precisa sustentar-se nas suas deficiências mesmo diante da surreal situação em que se encontram.

Tudo isso narrado por uma hiperconsciência de tudo denotada pelo narrador que perfura a alma dos personagens que descreve em linhas ao mesmo tempo cruas, que geram certo incômodo, e poéticas, em grandes arroubos de reflexão e pensamento sobre o mundo. O poder que José Luís Peixoto imprime à narrativa é intenso na experiência de leitura. Ele segue em cada página dando conta da metáfora de loucura e caos que criou. A alegoria da falência da civilização é um forte traço dessa obra do português, que preocupa-se, mesmo nesse ambiente de sangue, morte, perda, dar o ar de normalidade — a casa continua com uma rotina, as pessoas precisam cumprir seus afazeres, os ‘prisioneiros’ têm o direito de circular livremente pela cidade (onde todos os moradores também estão amputados de alguma coisa, como se essa perda de membros fosse também a perda da sensibilidade do homem moderno), e tudo segue o cronograma de uma vida ‘comum’.

O contorno desenhado por Peixoto é preciso, cuidadoso, mesmo nas cenas mais sangrentas, mais duras e hiperbólicas. A prosa poética do português cativa por saber fazer um uso consciente dos clichês sentimentais. E há bastante clichê nas suas páginas. Contudo, ele ali está a serviço de um projeto narrativo e não como ancoradouro para disfarçar a falta de recursos de narração. É o domínio que Peixoto tem das direções de cada personagem, do desconcerto em que consegue deixar o leitor, que faz desse seu curto romance uma obra de fôlego, de reflexão sobre pontos essenciais da vida humana e de o quanto ainda se tem de insensibilidade nos costumes da vida moderna. Romance poderoso, com algumas ressalvas, mas que sustenta-se bem da primeira à última página — com o perdão do clichê.

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