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a máquina de fazer espanhóis – valter hugo mãe

30/09/2016

corpomaquinadefazerespanhoisA língua, sob a batuta do trabalho de grandes escritores, é capaz de tomar formas insuspeitadas; capaz de alterar a perspectiva de um fato, de narrar, sob o verniz da excelência, uma história e fazer dela um marco, um acontecimento. É o poder da criação narrativa. Narrar, em ficção, é essa capacidade de transpor os limites da realidade usando a própria realidade (ou não) como matéria prima; é usar as forças do real para compor o que dele foge. Nesse campo se divide os bons e maus narradores, aqueles que detém para si, de independentes formas, o poder da narrativa — dominando-a ou não. E essa ação é acertadamente chamada de “poder” porque nela há profundas capacidades de mudanças naquele que recebe sua influência. O poder, essa potência de domínio de uma linguagem — seja ela política, ficcional, institucional ou religiosa, ou mesmo uma mescla de todas as anteriores juntas — que exerce no outro uma espécie de controle — emocional, comportamental ou reflexivo, ou também a junção de todas essas numa só —, consensual ou não.

Por isso este poder de narrar, de compor histórias, de dar vida a “inexistentes” universos — até onde pode-se afirmar essa existência ou não? Se afeta, se transforma, se causa impacto, se transmuta, como não considerar esse poder real? —, em que a vida pulsa sob outra frequência, sob cadenciado e planejado comando, permite que pensar sobre ele seja um diálogo (ou um conflito?) de forças. É a partir dessa ação — a ação narrar, de pensar a existência com base na literatura — que a vida passa a apresentar inesperadas perspectivas. É a potência de vontade nietzschiana posta à baila nas linhas da literatura. É ali, entre personagens, reviravoltas, idas e vindas, que parte da vida — do que escreve e do que lê — também acontece; e é sobre a própria vida que recai os mais (im)pertinentes pensamentos.

Essa capacidade de pensar a vida em si — não o em-si kantiano, talvez mais por uma perspectiva sartreana da existência — é que autoriza fazer dela uma outra matéria que corre nos vincos do tempo. O perceber este tempo reservado à existir com outros olhares é dessas características que apenas os grandes narradores conseguem imprimir em seus leitores. Tão somente os livros poderosos na sua capacidade de narrar e criar símbolos são os que conseguem exercer profunda mudança naquele lhes têm em mãos e perscrutam suas linhas e entrelinhas.

O português Valter Hugo Mãe, aclamado como uma das mais potentes vozes da literatura lusitana contemporânea, dispõe desse poder de narrar e pensar a vida. A sua obra a máquina de fazer espanhóis (Biblioteca Azul, 2016) deixa patente essa capacidade. Ao contar ao leitor a história de antónio silva, barbeiro de ofício, que foi deixado praticamente a própria sorte em um lar para idosos, pouco tempo depois de ter perdido a esposa com quem passara quase que toda a vida, Mãe propõe pensar sobre essa etapa da vida em que se considera tudo findo, tudo terminado. A velhice é a matéria principal do romance de Hugo Mãe. É nela que fará uma perscrutação vivaz, eloquente e poética.

Nas primeiras cenas, se conhece antónios silva, já de avançada idade, ausente das questões cotidianas da vida e na fase em que crê que é hora de desaprender as coisas, voltar a ser uma criança em corpo enrugado. Irrita-se por saber que irá viver seus últimos dias na companhia decrépita de outros velhos, tão velhos quanto si. A personalidade de silva é irritadiça, cética e irônica. Essa ironia é um dos elementos que atravessa a história de Mãe. O asilo em que silva fica chama-se lar feliz idade. Uma ironia clara ao notar-se que essa, para o protagonista, está longe de ser uma idade feliz.

“um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda vemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento”, diz silva ao ver-se só, naquela idade, com a “demissão” — termo que o narrador usa para a morte de sua esposa — da função de lhe justificar a vida. laura foi o amor definitivo da existência de antónio silva, sua companheira de toda uma vida, com quem dividira todos os percalços e curtas alegrias. Ao ver-se sem essa companhia, Silva não consegue visualizar possibilidades razoáveis de continuar vivendo bem, ou de ver na vida alguma boa perspectiva.

Nesse ponto Mãe traça a primeira linha de leitura do romance, ao pôr sua personagem numa situação que lhe parece limite. É o fim, pensa silva, pensa também o leitor nas primeiras páginas do romance. Como vai poder viver satisfatoriamente um desgraçado velho e viúvo? É o indicativo da confirmação da ignomínia de silva. É o pessimismo dele conquistando a simpatia do leitor, que se compraz do seu estado.

É então que o leitor entra, junto com silva, no lar feliz idade. Lá o cheiro da velhice impregna o ar. Tudo é lento, ritualístico, organizado e cronometrado. A morte nesse ambiente é uma ronda constante, sempre à espreita. Não fala-se de nada ali que não seja a morte, o fim. silva chega no lar arredio, calado, circunspecto. É no silêncio que resguarda-se de qualquer aproximação. Misturar-se naquele cenário seria, para ele, a confirmação de sua decrepitude. Todo o lar é apresentado em minúcias. antónio silva observa os movimentos, as divisões sociais, de idades, de gênero, de comportamento. Até ver que não há como ser só num estado em que a solidão já lhe é uma constante companheira.

Se conhece então as figuras do lar feliz idade. Dona marta, abandonada por um companheiro bem mais novo que ela, o silva da europa, américo, entre outros tantos senhores e senhoras, e um dos mais importantes deles, esteves que diziam ser a inspiração para o poema “Tabacaria” de Fernando Pessoa. silva não lhe crê, mas é convencido após conhecer sua história em detalhes, como cruzou com Pessoa na tabacaria quando ainda era moço. E isso causa em silva um tremendo impacto. “caramba, com oitenta e quatro anos um homem ainda pode ficar deslumbrado e todo incrédulo, como se viesse para criança pasmar diante de um gelado.”

Aqui provém a segunda e mais importante linha de leitura do romance do português. É neste fato, conhecer joão esteves, que desperta a surpresa quase infantil em antónio silva, uma ruptura de visão. A velhice deixa de ser aí apenas um desaprender, para se tornar um novo campo de experimentação da vida, dos meandros mais desconhecidos dela. É a partir deste choque vivido pelo narrador, que as cenas e ações que se passam no lar feliz idade adotam outro ritmo e velocidade. A morte não deixa de ser essa presença que orbita a todos, aliás ela se faz ainda mais presente. Diversos idosos da casa perdem-se no decorrer do enredo. Um misterioso incêndio numa das alas do lar acontece e deixa todos os velhos alvoroçados e conspiratórios. Rumores de que os funcionários do asilo “aceleram” a partida dos velhos crescem, deixam silva irrequieto e lhe traz alguma emoção e adrenalina. Sem ao menos perceber ou se dar conta disso de forma clara e nítida, silva adapta-se e vive envolvido com as questões do lar, já faz parte dele, da sua história. Os murmúrios e lamentações de seus companheiros são sempre entremeados de piadas e ironias, o que confere alguma leveza naquele ambiente de ar tão pesado. Mas as limitações da idade estão lá, presentes, como forma de mostrar que o processo da morte ainda está em curso, que não para. E a cada perda de um companheiro, antónio silva vê como pode ser potente a vida mesmo no fim.

No final das contas, Hugo Mãe transforma o fim num transmutado começo. Transforma a morte numa espécie curiosa de vida — da vida bem próxima e consciente do fim, porém, não por isso, triste ou enfadonha, apesar de frequentemente cética e pessimista. Não se foge desses destinos. Está-se lutando contra o corpo, afinal “ser-se velho é viver contra o corpo”. Se está aqui é para morrer, o que resta é saber usar com alguma inteligência e emoção o ínterim que está no intervalo entre esse começo e o fim.

O domínio que Mãe dá ao trato do romance é digno de nota. Tece, entremeado com pensamentos sobre morte e vida, uma crítica ao regime salazarista, duras e contundentes exortações contra a igreja, deus, e a religião — “ser religioso é desenvolver uma mariquice no espírito. um medo pelo que não se vê, como ter medo do escuro porque o bicho-papão pode estar à espreita para nos puxar os cabelos. esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua minissaia erótica tão desadequada à ingenuidade das crianças. o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas”. Cada capítulo funciona como se fosse uma crônica episódica, com saídas e técnicas que encerram-se em si a beleza do que é lido, sem que haja perda alguma para o escopo macro da narrativa. A prosa ali é cadenciada, poética, se utilizando de recursos metafóricos sagazes numa escolha cautelosa no uso das palavras.

A palavra é outro cuidado importante no trabalho de Valter Hugo Mãe. Escrito todo em letras minúsculas, com as falas das personagens e do narrador misturando-se sem qualquer demarcação que as diferencie ou separe, e com as perguntas sem interrogações, Hugo Mãe põe o leitor como partícipe de seu romance. É com ele que compartilha as possibilidades narrativas do enredo. Ele permite ao leitor certo crédito de composição. Escreve-se junto com o autor português, e não somente nas camadas interpretativas que o enredo oferece mas também na disposição dos termos de leitura que a escrita de Hugo Mãe imprime no leitor. É uma escrita cúmplice. O leitor tem outro peso, outra dimensão de importância aqui.

Nos elementos fantásticos que compõem a narrativa, Hugo Mãe atesta seu poder — essa palavra tão usada nesse texto — de narrador. Coloca no leitor o signo da desconfiança, dos limites entre o que pode ser “real” ou não. Está ali, na teimosia dos velhos em aceitar e criticar determinadas realidades, também a teimosia crítica do leitor para a aceitação de certos trunfos narrativos interpostos por Mãe.

Por fim, é reconfortante, ao chegar no término do livro de Mãe, se dar conta que não é o pessimismo e nem azedume em relação a vida que toma conta das sensações e impressões do leitor a respeito da vida. Tampouco se termina a leitura otimista — nem silva, nem Hugo Mãe parecem desacreditar do lado pútrido da existência. Finda-se a narrativa consciente das limitações da vida, dos mitos que lhe impregnaram, da ruindade da humanidade. Porém, fica-se lá um disfarçado apelo: “só acredito nos homens, e espero que um dia se arrependam.” É a esperança.

One Comment leave one →
  1. José Luiz permalink
    30/09/2016 23:48

    Um escritor como Walter Hugo Mãe faz a gente acreditar que ler e esçrever são algo de insuperavelmente necessário para a sobrevivência do humano em cada um de nós!

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