Dias de Abandono – Elena Ferrante

dias-de-abandono-elena-ferrante-post“Uma tarde de abril, logo após o almoço meu marido me comunicou que queria me deixar.” É assim que Olga anuncia a determinação de Mario, seu marido por quinze anos, em lhe abandonar. A notícia chega inesperada, repentina em meio aos eventos corriqueiros da casa — as crianças brigando, o cachorro dormindo ao lado do aquecedor. Olga fica paralisada e assim é deixada por seu agora ex-marido, como uma “pedra ao lado da pia”.

Esse choque que atinge Olga não lhe atravessa somente no momento inicial da ruptura do seu casamento. Rupturas como essas não se findam de forma tão abrupta, elas perpassam em demorado tempo as entranhas mentais. E foi como Olga ficou, nesse primeiro momento: tentando reexaminar, numa visão em retrospectiva do relacionamento, quais os sinais indicados de uma crise que não foram percebidos. Esse sentimento se apossa de Olga que, de uma hora para outra, vê o outro lado da cama vazio, e se vê com o desafio de cuidar sozinha de uma casa, duas crianças e um cachorro.

O abandono de Mario atinge Olga como um terremoto que lhe arranca dos eixos da comodidade e tranquilidade que até então cria viver, para empurrá-la a um turbilhão de sensações estranhas e autojulgamentos. Olga vai precisar percorrer um longo caminho a partir agora. O caminho de volta para uma pessoa que se permitiu descaracteriza-se em nome de uma relação.

A sensação de descaracterização, de descolamento da própria personalidade, que se anula em função de uma outra pessoa é uma forte característica da história de Olga. Elena Ferrante, escritora italiana, desenha contornos bem claros de banalidade ao construir a personalidade de Olga. Sua personagem é uma mulher perdida, anulada, que prefere o silencioso lugar a sombra da figura do marido. Mas que, porém, tem essa sombra retirada e se percebe incapaz de lidar com a luz da vida solitária.

Olga é a representação clara da anulação da individualidade. É submetida a toda uma estrutura repressora da personalidade em busca do encaixe perfeito nos parâmetros do discurso amoroso clássico. Roland Barthes em seu Fragmentos de um discurso amoroso, em que ilustra as etapas desse discurso, suas armadilhas, seus meandros mais ínfimos, apresenta essa errônea perspectiva do que é conectar-se com o objeto do sentimento amoroso, que vê na reformulação da soma matemática — onde 1+1 agora é igual a 1 — uma espécie de suspensão sobre a realidade, fruto dos ideais românticos aos moldes de Goethe — cujo o maior é exemplo é da obra Os sofrimentos de jovem Werther. Porém, a realidade não preocupa-se com o romantismo, não se sujeita ao discurso puro do ideal. A realidade — para fazer uso do clichê — é cruel.

O clichê, o banal é dos elementos marcantes do romance de Ferrante. Olga percebe então o colapso em que entra. A figura que julgava ser o companheiro para sua vida lhe trocou por Carla, a amante mais jovem. O abandono de Mario é completo — ele sai de casa apenas com as roupas do corpo. O desolamento de Olga, também. Forçada a abdicar da escrita, sua paixão, para cuidar das tarefas de casa e da educação dos filhos, Olga não foi preparada para os aspectos práticos do rompimento da sua relação. Não sabe como lidar com questões mínimas. E se desespera por isso. Entra em estado de letargia, fica depressiva, tem explosões de humor, colapsa por se ver da última forma que queria enxergar-se: abandonada.

Esse despreparo fica evidente na inabilidade que tem ao cuidar dos filhos, em estar alheia enquanto tudo desmorona ao seu redor, de ter como o único foco querer descobrir porque Mario se divorciou dela, o que o levou a fazer isso, quais as razões. Consequência natural de quem não se percebe anulado. Olga, na primeira parte da narrativa, não existe enquanto indivíduo. Existe somente como companheira abandonada de Mario. Como se a ida de Mario fosse a extração de uma parte sua. Ela é assolada pela memória dos dois, de como funcionavam como casal. E tenta desvencilhar-se disso. A linguagem, elemento pelo qual Elena Ferrante é tão afeita em suas narrativas, é então adotada como uma via possível de desconectar-se da antiga Olga. Assim, Olga torna-se ferina, chula, rasteira, vulgar no linguajar, comportamento que logo mais ela abandona, como um item desnecessário. A protagonista oscila, é irregular nas suas decisões, aérea diante das situações. Ainda assim, a quebra não acontece.

Caminhando numa tensão constante, a beira do insuportável, trancada em seu apartamento com Gianni ardendo em febre, com Ilaria provocativa e Otto, o cachorro, agonizando por um possível envenenamento de estricnina, Olga é posta em choque com a realidade. Essa realidade que ignora os seus dramas, as suas infantilidades. Otto, o animal que nunca desejou em casa e aceitava apenas no limite do tolerável, morre em seus braços. Porém, a morte de Otto não a empurra para a culminância do colapso, não é uma perda que a suspende ainda mais da realidade. Ao contrário, tem como função uma reconexão com o res do chão. É a partir dessa perda, que Olga parece juntar seus cacos, e refazer seus pontos abertos, recosturar sua sanidade degringolada.

Se julgando como inferior à imagem da atual esposa de Mario, vendo-se como uma figura esmaecida do que fora, Olga parece não perceber possibilidades que indiquem uma avançar da vida, o notório “seguir em frente”. Nesses moldes de relações simbióticas, onde se extingue o “eu” para o fortalecimento do “nós”, a separação do outro parece indicar o fim da vida. Não há mais possibilidades, não há mais jeito. “Se não for com você, não será com mais ninguém”, entre outras ilusões românticas — e perigosas. Somente a partir a perda do cão, de Otto, que figura como símbolo dos tempos de Mario, é que Olga se permite vislumbrar possibilidades. Porém, carregado também de simbolismo, Olga continua a ver o falecido animal a vagar pela casa, como um fantasma bem-vindo, como uma lembrança que não precisa existir de forma tão clara mas que não tem necessidade de ser apagada completamente, ou mesmo como forma de dizer que Mario não há, mas a sombra de Mario ainda resiste. É um jeito infantil de encarar as coisas, é o jeito de Olga. E, talvez, a forma de Ferrante em mostrar que tudo ali está passível de tantas interpretações quanto possíveis. Ferrante está sempre um passo a mais dos leitores. Lê-la é um exercício de observação, de paciência, de fervura calma e lenta de cada elemento da narrativa. Ela está no controle, mas sua manipulação dos fatos não é cínica, funciona mais como um quebra cabeça de mil peças que pode formar diferentes quadros, dependendo somente da forma como o leitor prefere encaixar as peças.

Olga busca então voltar a ter domínio sobre a própria vida. Volta a trabalhar, a lidar com Mario e Carla de forma aparentemente madura e sensata, a equilibrar as responsabilidades das suas vidas. Carrano, o vizinho músico a quem dá pouca é abertura, por quem não guarda qualquer tipo de atração, e a quem vê somente em contextos de distância e frios cumprimentos, acaba por se tornar essa possibilidade. Vendo-o se apresentar num concerto de música, Olga consegue perceber o quanto o insosso vizinho modifica-se ao tocar seu instrumento.

“Não sabemos nada das pessoas, nem mesmo daquelas com quem partilhamos tudo”, diz Olga em certo momento da narrativa. É uma conclusão óbvia, mais ainda depois de uma separação. Mas enquanto juntos, raramente um casal chega a essa percepção. Relacionar-se, em maior ou menor grau, é sublimar essa ignorância do outro. É fingir acreditar. É com essa dissimulação que Olga dá uma chance a Carrano, mostrando a ironia da trama de Ferrante. A obra é aberta, e carrega suas camadas muito tênues e delicadas. Pode ser que se interprete como a saga de um ciclo, que por mais doloroso que seja no seu encerramento e do qual se extraia lições de vida, volta-se a ele sempre — mesmo que as figuras que o componham seja outras; pode ser o sarcasmo da vida em dizer que não tem jeito, que se tratando de amor, sempre seremos estúpidos ou cínicos; ou ainda seja a forma de Elena Ferrante de dizer que há certas cegueiras temporárias que preferimos permanentes.

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