Salinger – David Shields e Shane Salerno

roedorsalingertexto“O que realmente me toca é um livro que, quando você acabou de ler, lhe dá o desejo de que o autor fosse um tremendo amigo seu e que você pudesse telefonar para ele sempre que sentisse vontade.”, diz em dado momento um dos personagens mais famosos da literatura universal, Holden Caulfield na narrativa de um dos mais expressivos romances norte-americanos, que todo leitor minimamente habituado ao cânone literário já deve ter ouvido falar, ou ter lido ou alimenta a curiosidade em ler: O apanhador no campo de centeio — que até hoje, em pleno 2017, ainda não recebeu uma tradução justa e que faça jus a força do livro. Por isso, me permita o parêntese logo no início dessa nossa conversa e se faça uma gentileza, leia The Catcher in the Rye no original, que é lá que reside toda a ironia e potência da escrita de Salinger. Curiosamente, a frase do personagem não parecia ser muito a vontade do autor em relação ao seus leitores.

Jerome David Salinger, compõe o grupo de raros autores em que a palavra “enigmático” pode ser aplicada com justeza. A imagem do escritor solitário, perdido em seus devaneios e criações, encaixam com Salinger de forma espontânea. Sobre essa vida silenciosa que se debruçaram por mais dez anos, o cineasta Shane Salerno e o jornalista David Shields. Na tentativa de encaixar algumas peças do quebra-cabeça que Salinger representa, entrevistaram durante esse período mais de 200 pessoas, algumas delas extremamente ligadas ao escritor autor de Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira.

Salinger morreu em 2010, com uma obra minúscula em extensão publicada. Sua última história fora posta à público em 1965 sob o título Hapworth 16, 1924. O escritor era dado a excentricidades — para usar um termo corrente e acessível. Depois de ver a primeira adaptação cinematográfica, que foi um fracasso, de uma de suas obras — o conto Uncle wiggily in Connecticut — decidiu que nunca mais concederia um texto seu para ser sugado pelas engrenagens de Hollywood. Decisão que se mantém até hoje. Da mesma forma foi quando viu a famosa ilustração do cavalo vermelho numa das primeiras edições do seu mais famoso, e único, romance, e a partir daí proibiu qualquer desenho ou imagem na capa de seus livros — apenas seu nome e o título, apenas palavras e nada mais —, o que nos deu aquela capa insossa cinza com letras amarelas na edição brasileira e que, repito, detém uma das mais sofríveis traduções de um clássico em terras tupiniquins — e olha que nessa disputa, a concorrência é enorme.

A biografia de Salinger foi publicada no Brasil pela Intrínseca com uma tradução em dez mãos — sim, Carlos Irineu da Costa, Cássio de Arantes Leite, Denise Bottmann, Donaldson Garschagen e Jorio Dauster, foram os tradutores responsáveis pela versão em português das mais de 700 páginas da história de vida do escritor. O trabalho de Shields e Salerno é absolutamente minucioso. Destrinchar uma vida completamente fechada, mexer em traumas passados, provocar respostas sobre assuntos evitados, e entrar na zona protegida de Salinger mostrou-se um trabalho monumental. O resultado é um trabalho que todo leitor de Salinger se daria por satisfeito — ou que faria os mais puritanos se condoer por aquilo que a parte da crítica considerou como uma invasão das intimidades de Salinger. De qualquer forma, é um livro que não deixa o leitor impassível. O levantamento iconográfico é espetacular — o livro inteiro é perpassado por fotografias inéditas —, e põe Salinger um pouco mais no nível do chão, do humano, além de desmistificar alguns dos mitos em torno de sua figura. Os traumas de guerra —  o escritor foi um dos primeiros norte-americanos a visitar um campo de concentração, em Dachau, na Alemanha, onde viu pilhas e pilhas de corpos, experiência que lhe rendeu uma internação psiquiátrica; a vida amorosa — que foi tratada longe dos resquício de fofocas, mas também longe de apaziguar as atitudes pouco elogiosas, como a sua relação compulsiva com meninas mais novas, com quem trocava cartas, e que logo se desinteressava assim que conseguia ir para cama com elas; o trabalho de escrita — apresentando o seu hiato de publicação não como um momento de silêncio, mas de excruciante trabalho silencioso e exaustivo, tanto para Salinger que chegava a ficar semanas trancafiado no bunker que construíra no fundo de sua casa, quanto para a esposa, Claire, que chegou a pensar matar a filha e depois suicidar-se de tão enlouquecedora que eram as manias reclusas de seu marido. Como dizem os biógrafos: “Ninguém podia entrar no bunker. Era o lugar seguro e um lugar sagrado para ele. Instalou ganchos nos quais pendurava cenas que havia escrito. Havia notas pregadas nas paredes. Era o lugar em que Salinger se tornava seus personagens (…) Nas histórias da família Glass, o conceito do Karma-ioga oriundo do Bhagavad Gita reza que você deveria fazer seu trabalho com tanta perfeição quanto pudesse, sem nenhum pensamento de recompensa, e só assim poderia ser uma pessoa realmente feliz.”

Bem, a felicidade de Salinger sempre parecia estar às custas da felicidade de outra pessoa. O caminho que a biografia segue acaba por revelar, numa estrutura de relatos, com cada entrevistado compondo sua perspectiva dos momentos de cada capítulo — o que em alguns momentos, acaba por comprometer a fluidez da leitura, porém nada muito problemático —, apresenta o universo de Salinger de forma quase completa. No quase meio século em que não publicou nada, Jerome — me permitam a ousadia da intimidade — não parou de escrever. Alguns relatos constam que havia escrito cinco romances inteiros no seu bunker.

O retrato de Salinger, na biografia de David e Shields, é a exemplificação de um humano tentando de todas as maneiras se encontrar — na literatura, na religião, no isolamento, no silêncio, nas meninas mais novas, na guerra. Ao mesmo tempo que parecia fugir dos holofotes, fazia questão de, quando ia às festas em Nova York ou na Broadway, se apresentar de forma  pomposa como o J.D. Salinger. Considero que não vale muito expor todo o arsenal de dados históricos que a biografia levanta e expõe — e pela qual foi criticada, ovacionada, mas, antes de qualquer coisa, celebrada por enfim colocar as contradições e peculiaridade da vida de Salinger em foco de forma honesta e com uma documentação exaustivamente longa. Vale navegar pelo calhamaço e desnudar os detalhes poucos conhecidos daquele escolheu não se deixar conhecer assim tão facilmente. No final das contas a vida de Salinger pode ser considerada uma genuína relação com o silêncio, uma visceral relação com a escrita — ele era fascinado pelo ato de escrever e considerava a publicação uma invasão de privacidade.

O relato da história de J.D. Salinger permite perceber que a literatura era, enfim, a real companheira do jovem rebelde, bonito e deslocado, que nos intervalos da guerra escreveu um dos trabalhos mais importantes da literatura do último século. Salinger ainda nos reserva grandes surpresas. Conhecer da sua vida passada, saber mais dos bastidores de suas obras — as publicadas ou não — apenas nos permite um preparo do que pode vir em anos futuros. E não seria temerário dizer que ainda restam alguns outros clássicos não conhecidos guardados nos arquivos do — para usar uma expressão do espanhol Enrique Vila-Matas — escritor do Não. Resta-nos esperar e ver.

Sobre Salinger há outros bons livros que servem com forma de entender esse obscuro universo e que recomendo com certo entusiasmo: J.D Salinger, a life de Kenneth Slawenski — que saiu por aqui pela editora Leya; Dream Catcher, a memoir da filha Margareth A. Salinger — livro pelo qual foi deserdada por Salinger; e, por um instinto de curiosidade quase mórbida, o Abandonada no campo de centeio (Geração Editorial), de Joyce Mainard — amante do escritor.

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