Baseado em Fatos Reais – Delphine de Vigan

roedor-baseado-em-fatos-reaistextoA escritora francesa Delphine de Vigan goza de relativa fama. No seu país de origem é responsável pelo livro Rien ne s’oppose à la nuit, que se transformou num grande sucesso nas terras de Proust. Esse seu best seller conta a história de sua família e mescla ficção e realidade. Graças ao bem sucedido romance, Delphine se vê então encurralada por leitores que procuram saber quais aspectos do seu livro eram de fato reais e quais eram frutos de sua imaginação. Um tipo de reação comum no público que hoje consome com muita facilidade qualquer coisa que esteja sob o título de “baseado em fatos reais”. Há uma espécie de sede nessa identificação, de saber o que o “real” pode nos trazer de surpreendente, de estarrecedor, ou mesmo de entretenimento.

Delphine, após a explosão que foi Rien ne s’oppose à la nuit, se vê enjaulada, com extrema dificuldade de iniciar seu próximo romance. Foi graças a experiência de exposição e o sucesso que seu Rien… lhe trouxe que ela pôde montar o argumento principal do seu romance posterior e seu primeiro publicado no Brasil, Baseado em fatos reais (Intrínseca), cujo o título não esconde a ironia da inspiração.

O romance é autobiográfico. A partir da experiência real que obteve, Delphine (a escritora) conta a história de Delphine (a personagem), também escritora, que se encontra sofrendo de um profundo bloqueio criativo e de escrita. Não consegue escrever absolutamente nada, nem mesmo um simples bilhete ou email. Isso acontece após o estrondoso sucesso que fizera seu livro, que conta em detalhes as intimidades da sua família. Delphine, a da ficção, é confrontada por leitores que questionam até onde há realidade no seu relato e também é perseguida por um correspondente anônimo, alguém que supostamente é de sua família, que lhe diz que o relato que ela conta em seu livro falta com a verdade e que isso pode lhe trazer consequências escabrosas. Completamente paralisada por essa situação, Delphine conhece L., ghost writer que se estabelece como sua amiga e confidente, e que se atribui das funções que Delphine não consegue dar conta de forma alguma.

Essa relação, na primeira parte do livro monta-se como um elemento pacificador, apaziguador para a crise de Delphine. Contudo, no segundo momento da trama, a história toma outra forma e os pequenos ganchos do enredo que foram sendo postos na primeira parte, passam a se desdobrar na segunda parte com toques de um thriller psicológico, o que culmina no terceiro momento do enredo como uma completa traição. A relação que era de amizade e confidência, passa a ser de dependência e manipulação. As aflições de Delphine em não conseguir escrever seu próximo livro, da busca por seus manuscritos antigos, na tentativa de encontrar alguma inspiração para seu novo trabalho, são postas em confronto com a discordância de L., que defende que a literatura precisa ser verdadeira na forma da sua criação.

Nas suas entrevistas, a escritora Delphine, a real, diz que buscou no Baseado em fatos reais discutir essa necessidade de autenticidade, de realidade, que os leitores buscam nas histórias que leem. No entanto, o trabalho de Delphine soa pobre e fica bem distante de debater esse assunto com a complexidade que ele exige.

A leitura do livro se arrasta. A força que se pediria para um mote como o seu não existe em nenhuma das pouco mais de duzentas páginas da trama. Os recursos de tensão não tensionam e a previsibilidade em dados momento chegam a irritar o leitor, que já sabe como aquilo vai terminar e se pergunta se ainda vale a pena percorrer as próximas páginas. L. como personagem enigmática não convence, tudo parece uma manipulação rasa e perceptível.

Os direitos do livro foram comprados pelo cineasta Roman Polanski e irá se transformar em filme muito em breve. O livro é problemático em diversos sentidos, mas é possível ver um filme do Polanski ali. A nossa grande sorte é que cinema e literatura, ainda que andem juntas, são artes distinta da narrativa. E é possível que Polanski consiga, com seu habitual talento, alcançar aquele momento raro em que o filme supera de longe, e nesse caso a dificuldade não será nenhum pouco complexa, o livro.

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