Tirza – Arnon Grunberg

roedortirzatextpoUm pai controlador, um editor de livros medíocre, um marido apagado, retraído, com tons neuróticos de percepção do mundo. Esse é Jörgen Hofmeester, que vive com a filha mais nova num bairro de classe média, típico da Europa. Jörgen prepara uma festa para Tirza, sua caçula, pois ela está preste a terminar os estudos e irá, antes de entrar na faculdade, para uma viagem para África. A festa de despedida precisa ser perfeita. Ela representa não apenas um ato afetivo de um pai para a filha, mas a confirmação de que ele não é um derrotado – algo que o leitor vai confirmando a cada página virada.

A festa que Jörgen dá para Tirza é o pontapé para um romance que começa em tons leves e vai adotando tons sombrios a medida que o enredo desenvolve-se. O holandês Arnon Grunberg pega elementos aparentemente comuns para traçar um romance visceral. É a visceralidade lenta e parcimoniosa que consome o leitor em cada página. Jörgen é o espectro da normalidade forçada. Com duas filhas, Tirza e Ibi – essa segunda que logo desvencilha-se do seio familiar e toma para si a independência -, e uma esposa que o abandona para viver aventuras amorosas juvenis – e que depois retorna como se nada houvesse acontecido, Hofmeester vive sob a pressão do acaso. Revela-se um pessimista – que lê Dostoiévski todos os dias para sua caçula antes de dormir, como forma de educá-la para o mundo. É um desacreditado do mundo (e talvez por todo mundo).

A figura do protagonista provoca no leitor uma mistura de complacência e raiva. Jörgen é um medíocre doentio, patologicamente preocupado com as aparências. É nas aparências que ele se agarra. É por essa vida falseada que ele suporta todo tipo de achincalhe, que se permite estar impassível mesmo diante dos mais duros golpes que recebe – seja os da esposa, das filhas, ou os da vida. O personagem de Grunberg é feito de acúmulos e dubiedades. Nesse seu esforço constante de manter o aspecto da normalidade, Hofmeester vai à extremos: forjar-se no absurdo, com sua personalidade passiva e irritante. Os traços psicológicos delineados por Grunberg das suas personagens acentuam-se na leitura pela verossimilhança com que os apresentam. A filha mais nova que não suporta as manias do pai, o ignora, o menospreza e com quem tem uma relação que pode se abrir para diversas interpretações – todas elas habilmente alimentadas por Grunberg ao longo do romance; a mais velha que transa com o inquilino do andar de cima e é flagrada pelo pai e que por ele alimenta sentimentos de ternura e pena, mas com a devida distância; a esposa ácida e com quem Hofmeester tem os melhores diálogos da obra; além do namorado de Tirza que tem a pecha de ser fisicamente semelhante a um terrorista e por quem Hofmeester alimenta seu preconceito xenófobo e também os pequenos personagens que brotam ao longo da narrativa e que, ainda que em aparições velozes, infligem sua marca no leitor.

A prosa de Grunberg é permeada de força. Ele escapa dos recursos fáceis e das armadilhas que um tipo de romance como o seu poderia cair. É numa escrita concentrada, hipnótica, atravessada pelo signo do esmero, que o holandês traça as linhas de um dos melhores romances, sem exagero algum, desse século. São mais de 400 páginas que correm numa velocidade sempre crescente, assim como a tensão do leitor que acompanha cada passo de Hofmeester por sua própria perspectiva. Mesmo o recurso da reviravolta que Tirza tem nas partes finais é plenamente bem trabalhado por Grunberg que soube inserir todos os pontos necessários que já preparam, quase subliminarmente, o leitor para o choque de informações que serão apresentadas nas cenas finais do romance. É um romance que ecoa na mente do seu leitor. Que provoca profundas reflexões sobre a vida em frases cirúrgicas.

Publicado no Brasil pela excelente Rádio Londres, com tradução direta do holandês por Mariângela Guimarães, Tirza é uma leitura para a existência – quiçá existencial. É a profunda reflexão sobre o colapso do espectro da normalidade da civilização moderna. Talvez Jörgen Hofmeester seja a representação fiel do homem que os modelos civilizacionais do ocidente não podem suportar. É a sua crise em termos crus. É a representação da insuportável aparência da normalidade.

“O tempo não cura todas as feridas, descobriu. O tempo rasga e abre ainda mais as feridas, provocando intoxicações e infecções. A morte talvez ponha um fim a todas as dores; o tempo, não.”

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