Irregularidade não é um pecado

Um breve perfil do escritor português José Saramago e da sua poderosa e inconstante obra

José Saramago é do tipo que se alguém perguntar “você gosta de Saramago?”, as respostas serão dividas entre “Claro, ele é genial, um dos maiores escritores que eu já li na minha vida” e “Óbvio que não, comunista, ateu, prefiro o Lobo Antunes”. Não pertenço a nenhum dos dois grupos. Faço parte de um terceiro, bem raro, dos leitores que procuram a sensatez (sem modéstia alguma). Os que não gostam da obra de Saramago quase sempre alegam os mesmos motivos, ou usam argumentos assemelhados: não tenho como gostar de um escritor irregular, que apoiava ditaduras, que foi forjado por intelectuais de esquerda, que só ganhou o Nobel por causa da pressão e todo aquele bláblá corriqueiro.

Tenho percebido que na maioria das vezes, os que se dizem anti-saramaguianos usam os clássicos argumentos ad hominem para descredibilizar a obra. Acho isso de uma baixeza terrível, idiossincrasia estúpida de pessoa pretensamente cult. Mas se um leitor de bom senso for analisar o conjunto da obra do escritor lusitano, vai chegar a conclusões altamente positivas.

Os críticos de Saramago apontam um fator que é relevante: a irregularidade. Talvez essa seja uma das raras acusações que faça sentido. Faz sentido porque é o que se comprova de fato. Por exemplo: na publicação de Terra do Pecado (1947) Saramago escreve no estilo naturalista-realista, enquanto as tendências literárias da época estão flertando com o neorrealismo; seu primeiro romance passa, merecidamente, despercebido. Ele escreve com uma linguagem que é da metade de século XIX, um romance péssimo sendo obscurecido por Alves Redol, Vergílio de Ferreira e Soeiro Pereira Gomes. Ou ainda quando, depois de um grande hiato literário, ele resolve escrever poesia e publica Os Poemas Possíveis (1966), mais uma vez com um estilo anacrônico ao que havia de literariamente moderno, mais uma vez sendo passado para trás por outros escritores que eram “melhores” do que ele. Dessa vez foram Herberto Hélder e Cesariny. Admito isso, o luso escriba foi irregular. Escreveu coisa ruim, sim.

Porém, piores do que os críticos rasos, são os leitores fanáticos. Sou sensato. Pelo menos procuro ser. Admito que livros como Caim (2009) ou Homem Duplicado (2002) não são livros que estejam aptos a figurar na lista de obras geniais. Contudo, não posso incorrer na injustiça de chamar de “ruim” um escritor que teve a sacada de alegorizar de forma tão certeira e ferina uma humanidade cega, como Saramago fez em Ensaio Sobre a Cegueira (1995). Não posso ignorar e relegar ao escuso grupo que produz literatura B e C, um escritor que compôs livros como A Jangada de Pedra (1986), ou que tenha feito um melhor relato da construção de um prédio histórico, que é o convento de Mafra, sob a ótica dos excluídos — os que de fato ergueram todo aquele colosso — como ele no Memorial do Convento (1986).

Não consigo ver qualquer demérito num escritor que reescreveu de forma tão ácida e sarcástica a vida do maior ícone religioso do ocidente, um tal de Jesus Cristo, como fez o lusófono no seu Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) ou pela releitura da vida conturbada de um dos melhores heterônimos de Fernando Pessoa, num livro como O Ano de Morte de Ricardo Reis (1984). Todos esses livros num estilo único na literatura, com a oralização da escrita, com a mistura dos discursos narrativos, com uma gramática e semântica originais, com frases de um efeito arrebatador, pio domínio da língua, uma ironia peculiar e um sarcasmo frio. Não, senhores críticos, não tenho elementos para encarar Saramago como um escritor meia-boca.

Pode parecer que seja eu um leitor que o defende não importa o que se diga. Não. Não sou. Porém não tiro os méritos da obra por restrição ao homem. Se aparecer um classificando a obra poética saramaguiana como tosca, concordarei. Se vier outro dizendo que as peças do escritor lusitano são enfadonhas, me calarei num consentido silêncio. No entanto não posso me furtar de defender uma das maiores vozes literárias que já nascidas sob a última flor do Lácio. Digo assim mesmo, expelindo parcialidade (quem é imparcial nos seus critérios, na análise de uma obra?). Por isso se você vier me perguntar; “e esse tal de Saramago aí, é bom?”, não hesitarei em responder “Ô, se é”.

 

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