Mensur – Rafael Coutinho

O quadrinho nacional tem caminhado bem. Obras monumentais, traduções correndo à solta e um fluxo de criação e qualidade bastante acima da média. Isso é um excelente sinal. Indica maturidade de uma arte que até bem pouco tempo contava com escassos nomes dando conta da produção. Um dos grandes nomes nesse segmento é Rafael Coutinho, conhecido por produzir, junto com o escritor Daniel Galera, a HQ Cachalote, um sucesso de crítica e público.

Coutinho estava ausente dos holofotes nos últimos anos. Alguns poucos títulos vieram depois de Cachalote, mas nada muito relevante. Nos últimos sete anos, no entanto, ele esteve trabalhando nessa que talvez possa ser considerada uma das suas melhores obras: Mensur, que acaba de sair do prelo através do selo Quadrinhos na Cia., da Companhia das Letras.

Mensur é o retorno colossal de Coutinho. Foram sete na produção da obra. Porém, uma espera mais que justificada quando se encontra o resultado desse processo tão extenso de produção. A história de Gringo, um andarilho que circula por cidades a procura de pequenos trabalhos e bicos e que carrega uma grave cicatriz no rosto, estabelece uma forte ligação com o leitor já nas primeiras páginas — que você não vai soltar até chegar na página final.

Gringo é praticamente do mensur — um mensuren — uma espécie de luta de espadas praticada na Alemanha nos séculos XVIII e XIX — e que tem praticantes espalhados pelo mundo até hoje. Coutinho entrou em contato com a luta por meio do livro O Cultivo do Ódio de Peter Gay, que trata, num dos capítulos, do mensur. Foi ali que surgiu semente para o desenvolvimento da trama.

O protagonista é um solitário, bastante esquivo, duro, um cara que vive uma existência áspera. Ao mesmo tempo é um perdido, que tenta sobreviver, e tem pouco jogo de cintura, mas que é perpassado pelo senso de honra que o mensur lhe traz. O mensur, muito mais que apenas uma presença, uma luta, uma arte, no romance gráfico de Coutinho, se transforma também numa personagem. Uma espécie de caminho que Gringo usa para alcançar um encontro consigo.

É dentro de si que Gringo trava a real luta e persegue seus pobres demônios. Tudo isso ao mesmo tempo que tem que trabalhar de forma desumana para conseguir viver no limite do humano — uma representação bastante potente do trabalhador brasileiro comum, que precisa se anular para não deixar de existir.

A história de Gringo — que perde o gosto e a textura se os detalhes errados forem entregues numa resenha curta como essa — é a história de uma busca existencial. A filosofia do mensur é um desses elementos que traçam o contorno dessa busca. O amor também está ali como uma dessas metáforas da busca. A cena da briga no bar, em que caso amoroso de Gringo está presente, tem esses traços bastante acentuados. É de honra que Gringo fala. Esse caso amoroso também põe Gringo em xeque — como o amor sempre nos põe em xeque — e pode revirar episódios do seu passado que ele luta para esquecer, escamotear de alguma forma.

Mensur é uma saga épica, silenciosa, contida no roteiro, mas que ecoa no impecável esmero ilustrativo de Coutinho. Os desenhos, a configuração dos quadros, a fotografia, os ângulos que Coutinho explora, permitem uma visualização em 360 graus da vida de Gringo. Mergulhamos junto com o protagonista na sua busca, e nos aflingimos na mesma proporção com as suas dúvidas não-ditas. O texto de Coutinho se compõe basicamente de entrelinhas. É nelas que a história acontece. O texto na superfície é apenas um convite para a imersão.

Creio que não vale adiantar mais do que isso. O certo, contudo, é que você deve ler Mensur sem qualquer receio de decepção. É uma obra de fôlego. Um fôlego rápido, que corre em pouco mais de 200 páginas, e que você não deve esquecer tão cedo.

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