Uma noite na praia — Elena Ferrante

Celina é a boneca preferida de Mati. É também a protagonista que narra em primeira pessoa essa curta história de abandono. Mati, como toda criança, tem um brinquedo preferido. O dela, é a boneca Celina, que carrega para todo lugar e com quem estabelece uma ligação íntima. Como é habitual, numa das idas da família à praia, Mati leva Celina a tira-colo. Mas a rotina de diversão das duas é quebrada quando o pai de Mati chega com um gato na cena e dá para a garota de presente. É aí que o cenário muda. Celina, até então, a favorita de Mati, de repente se vê posta de lado. É esquecida, abandonada.

Único trabalho, conhecido até agora, infanto-juvenil da autora italiana Elena Ferrante, Uma noite na praia (Intríseca, tradução de Marcello Lino e ilustrado pela Mara Cerri) é o tipo de obra que você vai querer evitar que o seu filho leia antes dos 18 anos. Não é necessariamente uma leitura leve, porém para uma obra direcionada ao público infantil, está longe de ser uma platitude doce e deglutível, o que não implica numa depreciação das qualidades que Ferrante consegue imprimir no livro. É uma leitura que foge da abordagem óbvia e puxa para reflexões pouco infantis, num ambiente sombrio, triste, e melancólico. A escrita não perde o viço, justo por estar atravessada pela limpidez de palavras simples, mais diretas — porque, para todos os efeitos, a obra é para crianças.

O abandono é um tema que atravessa todas os trabalhos de Ferrante. É recorrente com todas as suas personagens. Olga, abandonada pelo marido em Dias de Abandono; Elena Greco, abandonada em A Amiga Genial, primeiro volume da Tetralogia Napolitana, por Rafaela Cerullo; Leda, que “abandona” as filhas em A Filha Perdida. Abandono é uma espécie de personagem secundário que orbita na realidade de todas as personagens de Ferrante e motiva suas reflexões. Nesse Uma Noite na Praia o abandono também está presente com intensidade. Celina é abandonada por Mati, assim que a menina se deslumbra com seu novo amigo felino. A boneca e narradora se vê desnorteada pela solidão noturna da praia vazia.

Celina passa, então, no percorrer da noite, uma série de vicissitudes nas mãos do Salva-Vidas Malvado da Noite, que a recolhe junto com as demais tralhas que os banhistas deixaram para trás na praia. Chateado por não ter conseguido encontrar nada de valioso naquela noite, o Salva-Vidas Malvado olha para Celina e a chama de feia. A boneca, que fala, responde em bom som dizendo que não é feia. Aí então o Salva-Vidas constata que a boneca tem palavras dentro de si. “Escondo no fundo da garganta todas as palavras que Mati me ensinou, que servem para as nossas brincadeiras (…)”, diz Celina aterrozida com a possibilidade de perder suas palavras. É nesse momento que o Salva-Vidas pesca, com um anzol, o Nome de Celina. “Vejo Celina, meu Nome, o Nome que a minha Mati me deu, sair voando pelo ar, pendurado no fio de saliva do Salva-Vidas Malvado, e em seguida desaparecer, no meio do rabo de largatixa, para dentro da boca do Salva-Vidas.”

A palavra é outro elemento que perpassa toda a obra de Elena Ferrante. É através dela que há a libertação de Lenu em A Amiga Genial; são as palavras que provocam uma reviravolta na silenciosa e resignada vida de Olga no Dias de Abandono; e é com as palavras que Leda pode enxergar-se de um jeito menos romantizado no A Filha Perdida. As palavras são os códigos definidores da nossa percepção do mundo, que formam os símbolos que constituem nossas perspectivas da realidade. E aí que está guardada a grande potência metafórica dessa obra infantil da escritora italiana. Quando confrotados com o abandono ainda nos resta as palavras para encarar esse fato, mas e quando nos faltam as palavras? “Com essas palavras, ela [Mati] falava e me fazia falar, fazia falarem os animais, as estrelas, as nuvens, os grãozinhos de areia, água do mar, os raios e os trovões, os guarda-sóis e as cadeiras, todas as coisas.” Ferrante encontra, na sua engenhosidade narrativa, um jeito sereno de trazer um assunto tão complexo para os pequenos leitores. E desenvolve com calma, no ritmo do tranquilo desespero inocente de Celina.

No encerramento da história temos um final feliz, que traz a força das palavras no cerne da curta trama de Ferrante. É nas palavras que há libertação. O que, me ocorre agora, talvez seja um mote mui oportuno para um público infantil, já que a criança está em contato “inicial” com as palavras, ainda no processo de descoberta dos seus poderes, das suas influências, das suas forças definidoras. A criança é, no final das contas, o ente de relação primordial com as palavras. O adulto já recrudesceu, perdeu, na maioria das vezes, a capacidade do encanto com as palavras, enquanto a criança enxerga ali a possibilidade do ludicidade, de brincar com elas, de se espantar, numa espécie de pathos aristotélico de relação com o mundo.

Pode ser que o pequeno leitor não capte todas as nuances postas por Ferrante nas entrelinhas do drama de Celina, mas não há dúvidas de que o leitor adulto, se aberto a possibilidade, se encantará facilmente com o domínio das palavras da escriba italiana que até mesmo num livro infantil não falha na composição.

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