100 anos de literatura holandesa: uma entrevista com Daniel Dago

A literatura holandesa ainda tem pouca guarida em terras brasileiras. É uma língua com poucos tradutores, e com autores que raramente são traduzidos em qualquer idioma. Expandir os horizontes de alcance da literatura produzida na terra dos batavos tem se configurado num desafio hercúleo. Desafio esse que o tradutor Daniel Dago assumiu como missão de vida. O tradutor lança agora, pela Zouk, a edição de Contos Holandeses (1839-1939) que introduz diversos nomes fundamentais da literatura da Holanda aos leitores brasileiros.

Dago conversou com o blog um pouco sobre o processo de produção da antologia, sobre os ossos do seu ofício, seus projetos futuros, mercado do livro no Brasil e dos colegas de trabalho que admira. Confira a entrevista:

O trabalho de tradução, fundamental sob diversas perspectivas, continua bastante negligenciado e subvalorizado. Problema que não é de hoje. É uma profissão silenciosa, pouco badalada, e que enfrenta inúmeros percalços. O holandês é — ao lado do hebraico moderno, português e grego moderno — um dos idiomas mais preteridos na tradução em língua inglesa, conforme indica The Oxford Guide to Literature in English Translation. Realidade bastante semelhante a do Brasil, onde autores holandeses em português ainda são raros. O que te fez, então, assumir o desafio de ser tradutor do holandês? Como foi para você criar essa predileção? Quais tradutores te inspiraram a trilhar por esse caminho?

Justamente o fato de não termos praticamente nada de literatura holandesa por aqui. Vim de uma família acostumada com idiomas. Resumindo muito minha atribulada vida: o holandês, basicamente, tomou conta de mim. Eu falo/estudei muitas línguas, e já recusei traduções profissionais do: inglês, francês, italiano, alemão, russo, polonês, finlandês, e mais de vinte do próprio holandês, quase todos os que saíram nos últimos anos. Escolho a dedo o livro que vou traduzir, até os editores me consideram seletivo demais. Meu objetivo é traduzir os grandes clássicos da Holanda, preencher essa lacuna.

Meus ídolos: Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos, Paulo Rónai, Paulo Henriques Britto, Mamede Mustafa Jarouche. Me espelho mesmo em Schnaiderman, tento fazer pela Holanda o que ele fez pela Rússia no Brasil.

O mercado brasileiro costuma ser um tanto quanto arredio na hora de escolher títulos internacionais para lançar por aqui — basta ver quantos bons livros ainda estão fora do catálogo nacional. Consegue identificar quais são essas dificuldades em abrir caminhos para outras literaturas? Quais clássicos holandeses você considera que deveriam ser traduzidos para o português?

No caso do holandês, basicamente, falta de tradutores (conta-se nos dedos os profissionais ativos), e a Fundação Holandesa, que paga a tradução, órgão extremamente difícil de lidar e trabalhar em conjunto. Faço a minha parte indicando colegas aos editores e ofereço livros, tanto minhas traduções já prontas ou em andamento quanto obras que eu não traduziria, mas indicaria colegas. Costumo brincar que Boris Schnaiderman não teve tanta dificuldade quanto eu, pois Tolstói e Dostoiévski já eram conhecidíssimos do público brasileiro quando ele começou a carreira, Boris “apenas” traduziu diretamente e de forma esquemática, e eu tenho que começar do zero: no Brasil, quem conhece Multatuli, o escritor nacional da Holanda?

Por incrível que pareça, eu já traduzi uma parte significativa dos clássicos nesses oito anos em atividade, cerca de dez livros, estão prontos ou em andamento, os que eu acho vitais saírem por aqui. Pela própria Zouk sairá provavelmente ainda esse ano o romance Sobre pessoas velhas e coisas que passam…, de Louis Couperus, figura monumental de seu país, ele foi muito famoso na Europa de seu tempo, traduzidíssimo, teve fãs ilustres, como D.H. Lawrence, John dos Passos, Oscar Wilde (com quem trocou cartas, inclusive) e Katherine Mansfield, cujo artigo elogioso ao Sobre pessoas velhas… constará na edição da Zouk, tradução está pronta há anos. Zouk também soltará ano que vem Uma confissão póstuma, de Marcellus Emants, autor adorado por Coetzee (provavelmente nossa edição terá prefácio dele), que o compara a Flaubert, Tolstói, Ford Madox Ford, D.H. Lawrence e Dostoiévski; minha tradução, pronta há anos, ia ser lançada pela Cosac Naify, mas por diversos motivos acabou não saindo. Estou quase terminando Max Havelaar, de Multatuli, o principal romance da história da Holanda, por lá comparado a Dom Quixote e Tristram Shandy, sairá pela Âyiné. Isso só para ficar em três autores… que estão em Contos Holandeses (1839-1939), aliás.

No entanto nos últimos anos, tivemos uma explosão de lançamentos holandeses no país. Para falar dos mais recentes, foram lançados No mar de Toine Heijmans pela extinta Cosac Naify, Tirza e O homem sem doença ambos de Arnon Grunberg publicados pela Rádio Londres (todos traduzidos por Mariângela Guimarães), e Bonita Avenue (tradução de Cassio de Arantes Leite) de Peter Buwalda pela Alfaguara, que tiveram excelente recepção. O que indica, de alguma forma, que não temos resistência, enquanto público leitor, para a literatura holandesa, principalmente no que se refere aos trabalhos contemporâneos. Dos autores holandeses atuais que tenham obras de qualidade, quais você sente falta no mercado brasileiro? Qual o grande problema de publicar esses trabalhos por aqui?

Há algum tempo tento vender por aqui A.F.Th. van der Heijden, o mais famoso ao lado de Nooteboom e Grunberg, mas sua obra não ajuda, por ser muito grande e pouco traduzida; ele tem um ciclo de oito volumes, igual a Karl Ove Knausgård, chamado O tempo desdentado. Thomas Rosenboom também é um excelente que deveria sair aqui, devo começar a divulgá-lo aos editores em breve. Kader Abdolah é outro que não temos, foi traduzido para 30 línguas, vendeu milhões; aos editores, costumo compará-lo a Salman Rushdie.

Editores preferem contemporâneos porque jornalistas podem entrevistá-los por e-mail, telefone, os autores podem vir ao Brasil fazer divulgação; a própria Fundação Holandesa tem essa predileção. Dos mortos, apenas o tradutor responde por eles, então a divulgação é bem mais difícil, do ponto de vista editorial.

A literatura brasileira contemporânea tem ganhado um lugar importante no cenário do mercado editorial pelo mundo. Autores como Carola Saavedra, Luisa Gleiser, Ricardo Lísias, Carlos Henrique Schroeder, Daniel Galera, Michel Laub, ou mesmo os mais clássicos como Machado de Assis e Clarice Lispector, entre outros tantos, têm conseguido seus espaços em outras línguas. E na Holanda, como a literatura brasileira é recepcionada? Quais autores têm sido traduzidos para o idioma dos batavos? Sente que essa ligação entre a literatura holandesa e brasileira tende a se estreitar?

A literatura brasileira é muito traduzida na Holanda. Eles têm boa parte do cânone brasileiro: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Drummond etc, a lista é enorme. Clarice Lispector, por exemplo, está sendo retraduzida (!), Benjamin Moser a reintroduziu por lá. João Ubaldo Ribeiro, por exemplo, tem uns dez livros traduzidos.

Dos contemporâneos: Galera, Laub, Bernardo Carvalho, Edney Silvestre, também saíram. Dos que você citou, eu já tentei vender por lá Saavedra e Lísias, mas sem sucesso. Quando eu for na Holanda, talvez ano que vem, pretendo ir em editoras e tentar vender uma série de escritores brasileiros.

Sim, tende a se estreitar, porque há uma movimentação grande de tradutores de português por lá.

Está saindo agora, pelo prelo da editora Zouk, o Contos Holandeses (1839-1939) com organização, apresentação, notas e tradução sob a sua assinatura. A antologia é a primeira do gênero feita na América Latina. Alguns dos contos estão ganhando sua primeira tradução mundial. Por si só, o lançamento já é um feito histórico para o nosso mercado e também para a ampliação dos horizontes da literatura holandesa. Quais foram as dificuldades que surgiram no decorrer das etapas até encontrar uma casa editorial que assumisse o projeto?

Inúmeras. Você tem cinco páginas disponíveis? Se eu começar a enumerar tudo, não vou parar mais. (risos)

Contos Holandeses (1839-1939) traz nomes consagrados — e quase que completamente desconhecidos do público brasileiro — da literatura holandesa, como Simon Vestdijk e Frederik van Eeden. Nomes que já foram indicados inúmeras vezes ao Nobel, outros que receberam da crítica comparações de peso como Carry van Bruggen, considerada uma espécie de Virginia Woolf da Holanda — e única mulher da coletânea. Como foi o processo de escolha dos autores? O que mais te influenciou nessa seleção? O recorte de tempo, de 1839 a 1939, foi uma escolha de preferência pessoal ou respeitou alguma necessidade editorial pragmática?

Muito simples: escolhi os grandes autores clássicos da Holanda. Mesmo que o autor não seja um contista nato, resolvi incluí-lo para fins de introdução no Brasil, por sua importância em outra área, como romancista ou poeta; Frederik van Eeden é um exemplo disso. O recorte foi natural, pois Hildebrand, espécie de Charles Dickens, foi praticamente o criador do conto holandês, seu principal livro, Camera Obscura, saiu em 1839. Demorei um pouco para chegar no 1939, a antologia teve várias versões de data de término. O recorte também foi inspirado na Nova antologia do conto russo (1792-1998), organizada por Bruno Gomide e editada pela [Editora] 34.

O público brasileiro vai ter acesso ao cânone do período, autores estudados nas escolas e universidades da Holanda. Carry van Bruggen, por exemplo, é excepcional; seu conto talvez seja o meu preferido da antologia, e é a primeira tradução de um conto dela no mundo. Edgar du Perron, algo como Thomas Mann, principal figura do modernismo holandês, também merece destaque, seu conto é bastante complexo e intrincado.

Por questões editoriais, os contos precisavam estar em domínio público, mas consegui que o filho de Simon Vestdijk, espécie de Joyce/Proust/Mann, cedesse os direitos de um conto.

A antologia é relativamente curta — somente 240 páginas — se considerarmos que autores holandeses têm predileção por contos longos. O que ficou de fora que você gostaria de ter incluído? Os leitores podem esperar que, do material que não tenha entrado neste, possam surgir outros volumes?

Na verdade, ela é grande. Ficou com 240 páginas por ser formato amplo, 16×23. Se fosse o formato padrão, 14×21, teria 400 páginas. Gostaria de ter incluído Bordewijk e Nescio, dois autores chaves do período selecionado, mas não obtive os direitos. Traduzi outros, como Anna Blaman, J.M. Biesheuvel, Gerard Reve, ficarão para um possível segundo volume, do pós-Segunda Guerra até hoje.

A coletânea demorou oito anos para vir à tona. Foram diversos “nãos” recebidos, e inúmeras editoras procuradas para que então o projeto acontecesse e saísse pela Zouk. Imagino que essa demora e essas dificuldades devam compor uma etapa quase de praxe nos processos que estão na venda de ousadias como é o caso de Contos Holandeses (1839-1939). Quais outros projetos estão na sua gaveta a procura de execução? Há alguma perspectiva para eles?

Muitos prontos ou em andamento. Tenho o romance Caráter, de F. Bordewijk, cuja adaptação cinematográfica ganhou Oscar de melhor filme estrangeiro; talvez seja o clássico do século XX preferido dos holandeses, impressionante o quanto eles gostam desse livro. Tenho os contos de Nescio, algo como Tchekhov e Robert Walser, que recentemente foi editado com grande sucesso nos EUA pela New York Review of Books Classics. Tenho o romance Jamais dormir, de W.F. Hermans, um dos grandes autores do pós-guerra e enorme influência de Grunberg. Tenho O jardim de cobre, romance de Vestdijk, autor que mencionei acima. De cabeça, sem editora e parados aqui, é o que lembro, mas a lista é maior. Traduzi Urug, novela da Hella Haasse, a grande escritora holandesa do pós-Segunda Guerra. Projetos, obras que quero traduzir, há várias, mas não posso mencioná-las pois estão sendo negociadas com editoras.

O cenário do mercado editorial  brasileiro mudou bastante nas últimas décadas. Penso que os grandes grupos editorais não perderam (tanta) força, no entanto as editoras menores começaram a ganhar mais espaço, o que tem provocado uma democratização e horizontalização dos processos de publicação. Projetos fantástico que se perderiam se dependesse apenas das grandes casas editorais, hoje conseguem acolhida em editoras mais modestas. Inclusive, Contos Holandeses (1839-1939) é fruto dessa abertura, certo? Como você enxerga essa explosão de pequenas editoras surgindo e como isso pode beneficiar (ou prejudicar) o mercado editorial brasileiro como um todo?

Para mim, que traduzo livros bem específicos, só beneficia. Quando comecei a carreira, oito anos atrás, de editoras médias, era apenas [Editora] 34 e Cosac [Naify]. Eu passei por todas as editoras grandes e médias que você pode imaginar. Eles até têm vontade de fazer um holandês, mas é tudo muito lento, o primeiro semestre inteiro é praticamente dedicado à FLIP, e isso tira a atenção dos editores. O que mais me aconteceu foi editor X se interessar por projeto Y e o livro não ir para frente lá dentro da casa, obra é barrada pelos chefes da diretoria. As editoras pequenas, não; muitas têm só um ou dois editores, então facilita muito o diálogo. As pequenas estão mais dispostas a apostar na alta literatura, dão mais atenção, resposta mais rápida. Mesmo no exterior os holandeses de alto nível são publicados por editoras pequenas, como a Iperborea, na Itália, ou Ediciones del Ermitaño, no México. É um movimento excelente que tem acontecido por aqui, só fortalece nosso mercado e amplia nossa cultura.

Os tradutores de holandês ainda são poucos em terras tupiniquins. Mas dos que estão ativos, quais você tem acompanhado e gostado do trabalho? Quais obras traduzidas por eles indicaria?

Gosto muito da Mariângela Guimarães, as traduções dela são ótimas, gosto, em especial, de O homem sem doença, de Grunberg. Eu cotejei No mar, de Toine Heijmans, sua primeira tradução publicada, com o holandês e fiquei de queixo caído com a qualidade. Queria muito que o Walter Carlos Costa, talvez nosso maior especialista de literatura holandesa, traduzisse mais, mas ele é muito focado na universidade, não tem tempo para nada. Sérgio Luiz, um cara muito legal, vai estrear daqui a pouco, ele traduziu Huizinga, vai sair ainda esse ano pela editora Caminhos.

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