A Filha Perdida – Elena Ferrante

A maternidade talvez seja o mais avassalador dos elementos social de desestruturação de um indivíduo, de supressão do que lhe constitui. Aos moldes da compreensão sedimentada do que é ser mãe, na sua base, está a anulação. Nisso se fundamenta a ideia de que, após dar a luz, a mulher passa a ser uma função e não mais uma pessoa. Refletir, sem as amarras românticas, sobre a maternidade configura-se num desafio colossal, independente de qual ponto de vista você parta para chegar às suas conclusões.

A escritora italiana Elena Ferrante tem, com a sua obra, posicionado o feminino em perspectiva bastante realistas. É a partir das suas reflexões ficcionalizadas, que tem dado voz aos mais subcutâneos pensamentos e desejos do feminino. Não é exagero afirmar que, na literatura contemporânea, Ferrante é responsável por um novo viço narrativo e por dar às personagens femininas muito mais força que em décadas passadas. E isso não é diferente nesse A filha perdida na tradução de Marcello Lino, publicado no Brasil pela Intrínseca.

O romance é o terceiro trabalho de Ferrante, um romance avulso da Tetralogia Napolitana, foi publicado em 2006. Nele, a protagonista é Leda, uma mulher de meia idade que vai passar as férias no litoral da Itália. Mãe, Leda não está mais acompanhada das suas duas filhas. Ambas, já crescidas e parcialmente independentes, moram com o pai no Canadá. Mãe e filhas não têm uma relação muito íntima e fica claro que o alívio da distância é mútuo.

A narrativa de Ferrante volta-se para essa pausa existencial na vida da professora de inglês Leda, que ao estar em férias numa casa próxima da praia, com sobra de tempo para pensar e refletir sobre sua vida assume a trama com uma dupla função: ser a protagonista e antagonista do enredo.

Leda depara-se, nas suas idas a praia, com a família de Nina. Família barulhenta e efusiva, espalhafatosa, que lembra muito a sua com quem conviveu até os dezoito anos em Florença. Nina é uma jovem mãe, que vive atarefada na sua função materna, o que se agrava por ser ainda mais causa da sua juventude. Leda logo cria uma conexão com Nina e a sua filha, Elena. Porém, é essa relação de proximidade e similitude entre Leda e Nina, que desencadeia uma série de lembranças na primeira que a fazem tomar atitudes cruéis em relação a segunda.

A maternidade de Nina serve como gatilho para Leda pensar sobre a sua. É assim que se abre um intenso fluxo de memórias que a fazem acessar lembranças que estavam escondidas e eram propositalmente inacessíveis. É um confronto que se estabelece. Então Leda passa toda sua maternidade a limpo de si para si. O que não se mostra um exercício simples e cutuca muitas feridas pouco cicatrizadas.

Ferrante estabelece uma linguagem crua, límpida e expõe a psicologia da sua protagonista em termos claros, e caminha para pensar a ambivalência da maternidade sem estar preocupada em atender demandas românticas de entendimento dessa etapa da vida de uma mulher. De como a maternidade é cruel, tanto para filhos quanto para as mães. E é no ligar as pontas do seu passado, do que passara nas mãos de sua mãe e o que fizera às suas filhas, que Leda vê que “um filho é, de fato, um turbilhão de aflições”.

A narradora de Ferrante se prende à realidade quando constata que “o corpo de uma mulher faz mil coisas diferentes, dá duro, corre, estuda, fantasia, inventa, se esgota, e enquanto isso, os seios crescem, os lábios do sexo incham, a carne pulsa com uma vida redonda que é sua, a sua vida, mas que empurra você para longe, não lhe dá atenção, embora habite sua barriga, alegre e pesada, desfrutada como um impulso voraz e, todavia, repulsiva como o enxerto de um inseto venenoso em uma veia”. Tudo isso, enquanto do lado masculino, “o pai corria mundo afora, uma oportunidade atrás da outra”. Leda põe tudo em pratos limpos. E se confronta com as próprias decisões, muitas delas que colocam o leitor sem saber como reagir. Mas a maternidade é esse conjunto de cobranças sobre-humanas em cima de alguém fragilizado precisando ter uma resistência além de qualquer capacidade masculina de entendimento.

A trama simples, que poderia facilmente ser uma novela ou um conto estendido, desvelam um atordoamento quase animalesco que a maternidade traz ao feminino. Não é um sonho, não é um paraíso. E Elena Ferrante expõe isso magistralmente num romance conciso, cristalino. Como toda boa história deveria ser contada.

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