A Beleza é Uma Ferida – Eka Kurniawan

Eka Kurniawan é um escritor indonésio que tem conseguido romper as fronteiras da sua língua e do seu país. Foi o primeiro indonésio a concorrer o Man Booker International Prize. Seu trabalho mais famoso,  A Beleza é Uma Ferida chega enfim em terras tupiniquins e é o primeiro romance indonésio a ser publicado no Brasil. A tradução foi indireta, veio do inglês — The Beauty Is a Wound — e foi feita por Clóvis Marques para o selo José Olympio.

Comparações são sempre perigosas, porque elas exigem bom tino de percepção, de intersseção e muitas vezes ela falham em perceber nuances mais tangentes entre as obras comparadas e se tornam apenas tentativas de fazer uma obra brilhar com a luz da outra. A Beleza é Uma Ferida tem sido comparada, erroneamente, com Cem Anos de Solidão de Gabriel García Marquéz. Há pontos que se encontram, mas as obras estão em pólos narrativos distintos e se calcam em sustentações alegóricas completamente divergentes.

A obra de Kurniawan é um retrato de sociedade. O recurso para suas alegorias se fincam nos elementos da literatura fantástica. O mote inteiro do drama é a beleza. Dewi Ayu, notória prostituta da fictícia Halimunda, volta à vida depois de 21 anos morta. Ela dá luz à Beleza, sua quarta filha. As três primeiras filhas de Dewi se destacam, como a própria mãe, por serem belas, bonitas, garbosas. Este traço é que faz delas catalisadoras de embates, conflitos entre os nativos, soldados e guerreiros de Halimunda. Porém Beleza, nasce de um desejo profundo de Dewi: de que ela fosse desprovida de todo e qualquer encanto físico, que fosse asquerosa, horripilante, tremendamente monstruosa. O desejo da prostituta se realiza para além das suas expectativas e Beleza nasce como um autêntico desvio da natureza. É tenebrosa a ponto de ninguém querer tocá-la, carregá-la no colo e assim ela cresce.

É partir desse evento que os acontecimentos do romance de Kurniawan se desdobram, e sua capacidade narrativa é posta a prova. É aí que vai se apresentando um leque imenso de personagens que embaralham-se em inúmeros eventos de diferentes categorias. É o caminho que o escritor indonésio escolhe para retratar o conturbado período de independência das ilhas das índias holandesas.

A beleza se delimita como elemento definidor da realidade. Ela é que abre as portas e eclode os acontecimentos, as tensões, os jogos de poder. O sexo, nas suas manifestações amorosas e violentas, é outro forte componente do enredo de A Beleza é Uma Ferida. É através desses recursos que Eka Kurniawan monta um panorama do passado recente da Indonésia. Da ocupação japonesa à luta pela independência, a perseguição aos comunistas, que desencadeou em mais de um milhão de assassinados, entre tantas outras conturbações, Eka desenha, em tom alegórico, com forte peso para o folclórico, as linhas do seu mais famoso trabalho.

O ritmo da obra não é agitado, há inspirações notadamente melvilleanas, e tudo caminha de forma linear, sem reviravoltas que deixem o leitor fora de si. O que vai nos deixar consternados é a violência que atravessa as mais de 400 páginas do livro. Há muito sangue, muito abuso, e muita confusão. E a confusão se dá também na disposição dos personagens que se vai conhecendo a cada capítulo. A origem de cada um vai se somatizando numa profusão de personagens que atordoa o leitor menos atento.

O realismo mágico de Kurniawan é mais sombrio, desesperador do que o de García Marquéz. Sua Halimunda chega a lembrar, em dados momentos, a Yoknapatawpha County de Faulkner. Há bastante ironia em cada núcleo de histórias. Talvez a ironia seja o elemento mais interessante desse trabalho. É o que consegue sustentar a leitura. Porém, a linearidade e o não-movimento da trama beira em alguns trechos o enfado. A leitura em certas partes se arrasta. O livro não é de todo ruim, mesmo estando longe de ser completamente bom. Exige paciência do leitor, por causa de algumas simplicidades e pelas saídas tangentes que as micro-histórias embaralhadas dentro da trama maior adotam.

A edição poderia também ser mais cuidadosa no trato do livro. Estamos falando do primeiro romance indonésio publicado em terras brasileiras. Esse é um dado importante e deveria sê-lo também na forma como o material é cuidado. Senti faltas de notas explicativas — os personagens leem romances clássicos holandeses completamente desconhecidos do público leitor brasileiro ou há termos indonésios que precisam de contextos e explicações para situar o leitor durante o percursos do livro e esses dados passam batidos.

De qualquer forma, é um excelente primeiro contato com a ficção produzida na Indonésia. Nos desloca da confortável zona literária europeia e americana, nos apresentando um excelente exemplo de como a sátira pode servir tão bem a literatura.

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