Cenas Londrinas — Virginia Woolf

Virginia Woolf como guia turística. É a sensação que se tem ao ler esse seu Cenas Londrinas, publicado no Brasil pela José Olympio na tradução de Myriam Carvalho. Esse conjunto de pequenos ensaios sobre Londres é o retrato do amor de Woolf pela capital da Inglaterra — que já se demonstra quando a cidade é cenário de algumas das suas maiores obras ficcionais.

O lançamento se dá pela descoberta da crônica que fecha o ciclo das The London Scene, e que é o último texto da coletânea. Escritos entre os anos de 1931 e 1932, as cenas de londres são rápidos textos que descrevem os passeios de Virginia Woolf por Londres. O olhar da autora é fotográfico e cada texto guarda texturas únicas de como Woolf percebia aquela cidade inglesa do começo do século passado.

Os passeios da escritora vão das docas do East Side, passando pelo cais de Tilbury, atingindo o percurso da Oxford Street, depois atravessa observando os grandes prédios da City, até o deslumbre que sente ao ver a pomposidade da catedral de St. Paul e abadia de Westminster, desembocando na Câmara dos Comuns. O último relato, recém descoberto, é o “Retrato de uma londrina” e é o único texto ficcional do livro. Inclusive é o que melhor denota o contraste da Virginia escritora da Virginia cronista urbana.

Os relatos de Woolf estão carregados de argúcia, o que se denota na forma como ela conduz cada descrição. Do cais de East Side, onde há toda aquela efervescência de um porto a céu aberto e seu intenso fluxo de sotaques e produtos, ao encantamento que sente com as construções de St. Paul e Westminster, a objetividade é um traço marcante, com poucas notas sociais mais acentuadas, apesar delas não serem inexistentes. Há mesmo certa nostalgia aristocrática de Virginia em suas observações sobre Londres.

Os breves relatos dessa coletânea apresentam um aspecto pouco conhecido da obra não-ficcional da escritora, da sua objetividade e clareza agudas, que se posicionam diametralmente no sentido oposto da sutileza da sua escrita ficcional. A fluidez do texto de Cenas Londrinas se encaixa no que a crítica convencionou nomear como “visão masculina” da obra woolfiana.

O ápice mesmo do volume é “Retrato de uma londrina”, talvez por Virginia estar no seu campo de domínio, que é a ficção. Neste seu retrato, o foco da escrita de Woolf está na sua personagem, não mais em instituições locais, prédios, ambientes ou objetos abstratos. É neste texto que o ridículo da classe média londrina é posto em cheque, numa imagem irônica formulada pela escritora. A intenção da criação do clichê da aristocracia inglesa fica clara. A tendência a bisbilhotar, a fofoca, a devoção às convenções sociais, o ar de superioridade, tudo isso definido em contornos claros pela prosa da Virginia. O texto é de uma leveza fantástica.

Cada cena retratada por Woolf deixa nítida sua sensível percepção da realidade que a rodeia, como também seu tino de observação. Cenas Londrinas chega aos leitores brasileiros como um livro necessário para entender aspectos menos populares da poderosa obra de Virginia Woolf.

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