Nossas Noites – Kent Haruf

A imagem do amor, do poder amar, da intensidade da paixão, é sempre uma imagem jovem. No enaltecimento eterno da eterna juventude, congelamos o amor nessa jovial figura. Quando crianças, não temos idade para compreender a complexidade que é esse sentimento, quando velhos, pensamos que já estamos nas últimas linhas do nosso caderno e não nos preocuparemos com mais nada que não seja sobreviver a mais um dia. Anulamos a terceira parte da vida, como se ela fosse apenas um acréscimo e não uma das mais fundamentais etapas da existência.

Pensar o amor na velhice costuma ser um exercício nostálgico, apenas de rememorar bons relacionamentos vividos ao longo do tempo. Parece não haver espaço para algo novo, uma repentina vivência da descoberta. Mas há, e o escritor norte-americano Kent Haruf — morto em 2014 — mostra-nos isso magistralmente no seu último trabalho, o romance Nossas Noites publicado pela Companhia das Letras na tradução de Sonia Moreira.

Passar a noite juntos, dormir juntos, poder conversar com alguém no final do dia. Essa é a proposta de Addie Moore, viúva septuagenária, a Louis Water, também viúvo, na sétima década de vida e solitário. A ideia de Addie é simples e direta, assim como a forma que ela diz a ele sobre o que pensa. Numa visita ela diz sobre sua vontade e logo depois de um curto tempo de reflexão quem inverte a visita é ele. É uma experiência completamente nova para os dois. A cada noite, Louis vai à casa de Addie e ambos bebem na cozinha — ele cerveja, ela vinho — e depois sobem ao quarto dela para passar a noite juntos. Um ritual que solidifica, tal qual o laço entre os dois. Na última fase da vida, eles se descobrem novatos nas experiências desse relacionamento.

Quando a rotina está firmando, o neto de Addie surge em cena e então, aquilo que era um relacionamento de adolescentes crescidos torna-se, na introdução de Jamie entre os dois, na emulação de uma estrutura familiar. E Addie e Louis aprofundam-se na intimidade que têm um com o outro.

Haruf é extremamente potente na construção que faz da história que nos faz acompanhar. São poucas páginas e profundas reflexões sobre a vida. Sua condução do enredo não nos força a nada. É leve, fluída, equilibra os momentos de tensão com os de humor e cria um ambiente absolutamente aconchegante. O leitor entra na história sem querer sair dela. O clima de intimidade não é apenas entre os personagens, também criamos fortes vínculos com eles.

O ponto forte do romance é a conversação. Quase todo o livro é composto por ela. Abolindo o recurso do travessão ou das aspas como delimitadores das conversas que acontecem entre os personagens, Haruf também rompe a linha de cumplicidade entre eles e o leitor. É como se estivéssemos na cena com eles. Haruf sustenta cada um dos curtos capítulos da obra com a tinta de mestre. Não há uma linha a ser desperdiçada ali. Cada elemento compõe um ambiente muito bem arquitetado, em que a técnica narrativa casa perfeitamente com a simplicidade e potência da trama. É um livro rico em possibilidades.

Mais do que isso, é um livro poderoso. Sobre segundas chances, sobre parceria, amor incondicional, entrega. Sobre entender que para os sentimentos não há restrições, e que eles podem surgir dos mais diferentes contextos. O coração pulsa com a mesma força sempre. A busca da felicidade talvez seja a mais forte mensagem que o trabalho de Haruf comunique. E mais importante do que somente buscá-la, entender que ela sempre é possível.

Anúncios

One thought on “Nossas Noites – Kent Haruf

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s