A Invenção de Morel — Adolfo Bioy Casares

A ideia da sua vida se repetindo inúmeras vezes é incômoda para você? O filósofo alemão Nietzsche imaginou essa cena da seguinte forma: um anjo/demônio surge e lhe anuncia que sua vida, exatamente como ela aconteceu até aquele momento, irá se repetir ad infinitum com todos os percalços, acertos e erros, felicidades e tristezas. Você teria coragem de encarar sua existência, da exata forma que ela tem hoje, eternamente?

Outro pensador que ocupou-se com isso de pensar o real e a vida, a existência como projeção de algo que ela pode não ser foi o grego Platão que formulou a ideia do mundo ideal — ou mundo das ideias —, onde tudo que vemos aqui existe de forma perfeita e plena em outro lugar. Esse mundo onde vemos e tocamos as coisas, ele é apenas uma cópia mal formulada do mundo ideal, é uma versão deformada dessa realidade perfeita. A grosso modo seria como se morássemos numa Matrix programada para emular uma realidade que não é em si, é somente uma cópia. Uma cópia sem originalidade — com os riscos que podemos adotar em pensar o que diabos é algo original.

Obviamente que ambos os resumos das ideias dos filósofos foram feitos de forma bastante genérica e quiçá um pouco pobre demais. Mas deixam claro que existe há bastante tempo essa preocupação com a projeção de realidade. É um problema filosófico de primeira linha e tem mantido ocupados pensadores por séculos.

Entre tantos que se debruçaram na questão, um dos mais originais foi o argentino Adolfo Bioy Casares. O escritor é conhecido por escrever uma das mais profundas obras da literatura latino-americana, também podendo ser considerado um dos pioneiros na ficção científica pelas bandas de cá do continente. Conhecido por sua parceira com Jorge Luis Borges, Casares publicou obra A Invenção de Morel em 1940 e suscita uma série de debates sobre a natureza daquela estranha trama. No Brasil, a Biblioteca Azul publicou no ano passado uma cuidadosa edição com prefácio de Jorge Luis Borges e tradução de Sérgio Molina.

Um fugitivo político, que não se nomeia, escreve um diário sobre seus dias numa ilha deserta onde cria estar sozinho, até que surgem distintas figuras que adotam uma rotina e gestos sem alteração por dias seguidos. Nesse ínterim de descoberta, o narrador encontra-se com Faustine, uma misteriosa mulher que, assim como todos os demais “habitantes” da ilha lhe ignora por completo. Na investigação para saber quem são aquelas pessoas e, principalmente, quem é Faustine — por quem acaba se apaixonando — o protagonista descobre a máquina de Morel. Essa invenção é responsável por captar todos os movimentos de alguém e depois projetar isso como um filme cheio de textura e realidade eternamente.

 

É então que o narrador de Casares percebe que todas aquelas pessoas vagam pela ilha como se nada tivesse acontecendo na verdade estão mortas há muito tempo. Tudo o que se tem delas é essa imagem projetada a repetir-se sem fim. Contudo, já enredado pela paixão que sente por Faustine, o protagonista ensaia todos os seus movimentos e cria uma sincronia onde possa estar inserido no mundo ilusório de sua falecida amada. E assim acontece. A eternidade irá ecoar naqueles atos repetidos pelas platônicas projeções.

A riqueza da obra de Casares jaz exatamente na sua contemporaneidade. Até onde a tecnologia pode nos aprisionar? Nessa disputa do domínio do real, há limites? Até onde podemos interferir naquilo que consideramos real? Existe esse real puro e outro projetado de forma imperfeita? A ironia na trama de Bioy é que Morel e sua invenção emulam o jogo do divino que tudo domina, mas amarra apenas numa repetição, não numa criação.

São ricas as possibilidades interpretativas que a obra oferece. Qual o limite de controle que temos sobre a tecnologia e o quanto ela nos domina? Se visse o poder que uma pequena tela de um aparelho conectado à internet pode ter sobre alguém, Casares se chocaria. Corre-se o risco de leituras rápidas e rasas ou mesmo estúpidas na consideração dos desdobramentos que o avanço tecnológico promove na nossa relação com o real, mas eles existem e as consequências são perceptíveis. Ou não estamos numa grande caverna platônica onde uma realidade não-real projeta-se nas luminosas películas das telas dos nossos smartphones? Realidade que, inclusive, preferimos passar mais tempo inseridos nela do que na outra que nos rodeia. Esta não é uma perspectiva alarmista, é somente uma perspectiva de leitura.

As inconsequências do amor platônico também pode ser uma chave interpretativa do curto romance de Casares. O narrador não ama uma pessoa, ama a projeção — literal — de uma ideia do que pode ser Faustine. Ele não conhece Faustine. Conhece tão somente aquele fantoche que repete-se nos gestos e frases. Um gif realista não-real a quem o narrador dedica-se com tanto afinco a ponto de descola-se do mundo para estar naquele mundo paralelo que não existe e que no entanto está ali, tão forte que metaboliza os seus sentimentos e o afunda na loucura (ou será que a loucura mesmo seja querer viver nesse mundo “real”?).

A busca da eternidade, nos seus ecos manufaturados da tecnologia, o amor irrealizável fruto da idealização estúpida — como é quase todo amor —, a prisão da vida perene e ininterrupta entre outras completas possibilidades, faz da elegante obra casareana um clássico digno da classificação que Borges fez dela: perfeita.

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