Os Excluídos da História – Michelle Perrot

A concepção de que a História — esta com H maiúsculo —, enquanto entidade detentora do poder de narrativa que apresenta às gerações posteriores os feitos, os principais acontecimentos, conquistas e processos evolucionais (tecnológicos e sociais) das gerações anteriores é tido como um ponto pacífico. Nos últimos 60 anos principalmente — com a ressalva das tentativas que foram pioneiras e que constam de pelo menos um século antes — tem-se contestado essa perspectiva. Se a história é o registro dos fatos que atravessam-na, hoje se trabalha com o conceito de “local de fala”, que altera por completo as ideias basilares da narrativa histórica clássica.

Tão familiar ao leitor que singra os tenebrosos setores das redes sociais, o conceito de “local de fala” se popularizou. Como todo conceito fechado nas áreas de discussão da academia, o da fala e do seu posicionamento sócio-econômico-cultural sofreu distorções que se flexibilizaram de acordo com os objetivos do grupos que lhe fizeram uso. No entanto, não é intenção deste curto e introdutório texto entrar no debate do conceito e resguarda-se de não fazer caminho nesta seara. O que nos interessa aqui é tão somente a compreensão de que também a história foi composta a partir de uma perspectiva social específica — uma outra não-novidade.

Não poucos autores e pensadores chegaram nesta conclusão. Dos teóricos da história aos pensadores líderes de movimentos sociais, diversos artigos, estudos e livros foram escritos com vias de esclarecimento dessa concepção elitista da narrativa histórica predominante. Se há predominância, predomina-se sobre algo ou alguém, um território real ou simbólico e forma-se, numa leitura bourdieana, um habitus que formatava a maneira como metaboliza-se os dados históricos e os transforma em definição de um dado da realidade presente.

Ao atravessar as narrativas dos grandes marcos civilizacionais que a humanidade passou nas centenas de anos em que se compreende como um componente distinto da natureza, capaz de dominá-la, subjulgá-la e lhe alterar ao seu bel prazer através de diversos códigos de relação entre os seus semelhantes e os considerados à margem dessa interação, nota-se a supressão de figuras que mostraram-se fundamentais na composição do que hoje entende-se como sociedade — nas suas mais diversas aplicações conceituais e culturais.

Já compreendemos que a história foi construída a partir de um local muito específico. Local este de privilégios — outra palavra esgarçada pela constante aplicação e, por isso mesmo, conceitualmente perdida nos seus usos mais corriqueiros —, reservado a poucos. Com base nisso, vê-se como a história, enquanto poder minoritário, relegou diversos grupos considerados de menor monta e importância ao quase ostracismo, o que, como consequência, foi responsável pelo conjunto de símbolos tido como negativos associados a esses grupos. Os negros, os pobres, as mulheres, ou qualquer outro grupo que adeque-se à margem.

Contudo, diversos historiadores estão na linha de frente na ressignificação das narrativas clássicas da história. Responsáveis por reposicionar personagens fundamentais e grupos destinados ao esquecimento, esses historiadores — entre os quais destaca-se Eric Hobsbawm e suas obras sobre saqueadores, trabalhadores, grupos marginalizados — promoveram uma verdadeira revolução nas estruturas da história tradicional. Entre estes grandes nomes, consta o da historiadora francesa Michelle Perrot, que teve uma seleção de textos publicados sob o título “Os esquecidos da história” (Terra e Paz, 2017), ainda na década de 1980 e agora ganha uma nova edição. A responsável por selecionar o texto foi a professora Maria Stella Martins Bresciani, a tradução ficou a cargo da competente Denise Bottmann.

A obra de Perrot é de suma importância dentro da linha feminista dos estudos históricos. Ela é responsável por uma olhar renovado e atualizado sobre o papel da figura feminina como sujeito histórico. Este seu Os excluídos da história segue este mesmo caminho.

A historiadora francesa neste conjunto de artigos volta a colocar a tríade marginalizada e obscurecida no seu devido papel de sujeitos da história. O livro é divido em três núcleos agregando artigos sobre operários, mulheres e prisioneiros. O que cada artigo revela é a capacidade de Michelle Perrot de aliar perícia técnica e acuidade textual. Seu trabalho de pesquisa é extremamente meticuloso ao mesmo tempo que bastante acessível.

Já no primeiro capítulo — “Os operários e as máquinas na França durante a primeira metade da século XIX” — Perrot ambienta o leitor nas zonas operárias e de como a chegada de maquinário pesado reconfigura a noção de trabalho e “aprofunda a divisão tradicional dos sexos e a subordinação feminina.”. Categorizada, não sem certa justiça, como uma historiadora feminista, Perrot não ignora na sua leitura dos fatos históricos os papéis desempenhados pelas mulheres e nem como elas foram tratadas no decorrer no percurso da história. Ao abordar a vida operária da França, a historiadora percebe o caráter mais universal da forma como o feminino era entendido nas classes trabalhadores e também pelos detentores dos meios de produção. Perrot não ignora que “as mulheres defendem, assim como os homens, seu direito ao emprego”. O grupo dos operários, compostos por crianças, homens e mulheres, talvez tenha sido o mais preterido na história. Pois, segundo Perrot, a base da pirâmide social não consegue a atenção e o cuidado das classes hegemônicas sem muita luta e sangue. Nessa primeira parte, a autora ocupa-se dos desdobramentos da revolução industrial, dos percalços da vida cotidiana do operariado, e do nascimento do dia primeiro da maio como o rito operário de emancipação.

Na segunda parte do livro, as mulheres serão o foco da atenção de Perrot. Serão três capítulos — “As mulheres, o poder, a história”, “A mulher popular rebelde”, “A dona de casa no espaço parisiense no século XIX” — em que a autora vai percorrer com extrema lucidez sobre o papel exercido pelas mulheres em meados do século retrasado. Ao abordar as perspectivas do entendimento do espaço político ocupado pela mulher, Perrot apresenta um leque imenso de absurdos defendidos como pontos de vista sobre o feminino corroborados por inúmeros grandes pensadores — Hegel, Augusto Comte, Fichte, para ficar em poucos exemplos —, por atores sociais e políticos da época e que se assemelham bastante com parte da intelligentsia contemporânea quando o debate é gênero. No primeiro capítulo, “As mulheres, o poder, a história”, a historiadora traça esse panorama da compreensão do ser mulher no século XIX com esse approach esquadrinhando a mentalidade da época a partir da sua matriz biológica, social, familiar, política, sem deixar de lado o ostensivo controle exercido sobre a mulher nos seus aspectos mais íntimos; é também neste período que eclode os debates sobre a emancipação feminina e Perrot apresenta como se deu as articulações dos movimentos antifeministas, quais eram os seus recursos ideológicos, suas armas simbólicas e quais as premissas usadas para a manutenção do papel submisso da mulher. Assustadoramente atual.

Já na terceira parte, em que aborda os prisioneiros, os grupos marginais, Perrot caminha numa paralela intelectual muito semelhante a de Hobsbawn ao entender as revoltas sociais pulverizadas em pequenas gangues nos guetos franceses e atos de rebeldia civil como resistência política. As gangues adotavam seus próprios códigos de tratamento, e Perrot debate sobre a postura sexista que existia no núcleo de determinados grupos — isso atravessa o livro por completo, pois Perrot não ignora a diferenciação que acontece quando se trata do feminino em qualquer temática histórica e ela evita pasteurizar o apanhado historiográfico que faz. Caminhando entre uma leitura sociológica — inevitável para compreender a delinquência — e uma antropologia criminal este talvez seja a parte mais densa em termos de dados, levantamentos de estudos, do livro. É aqui que Perrot faz uma análise conjuntural dos processos que desencadeiam a marginalidade criminosa, o colapso das classes econômicas e a resistência política. Um apanhado muito rico que estabelece um contato muito estreito com a realidade contemporânea.

O sujeito da histórica é definido pelo sujeito político dominante de um tempo. Compreender isso para ressignificar essa relação e reposicionar os sujeitos ignorados pelo discurso predominante é parte fundamental da história como elemento de justiça com os grupos invisibilizados. Este papel Michelle Perrot desempenha com maestria. Este seu Os Excluídos da história define os sujeitos de forma justa e equânime. Uma leitura para os que querem compreender as relações sociais e históricas, e mesmo compreender a gênese de algumas mentalidades obscuras que vemos se recrudescerem nos dias de hoje. O clichê é ainda bastante válido: não há entendimento do presente sem a compreensão do passado.

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