A Fluidez da Estranha Existência

Maggie Nelson e os caminhos para entender o que é a existência queer

Antoine Roquetin, personagem-narrador de A Náusea de Jean-Paul Sartre, imerso em suas reflexões a respeito dos problemas que envolvem o fato de existir diz que “o essencial é a contingência (…) Existir é simplesmente estar aqui”. Encuca muito pensar nessa afirmação feita num dos mais importantes romances do século passado. O que define uma existência? Há na Filosofia muitas respostas para essa pergunta. Muitas delas nos suscitam mais indagações, algumas — que se pretendem definitivas — deixam a sensação da ausência de algo, e outras não dizem nada apesar ocupar imensos volumes de tratados filosóficos. Porém é a resposta sartreana que parece sintetizar a ideia de que certas complexidades que infligimos sobre o existir não passam de recursos de aprisionamento, que na verdade existir, essencialmente, é um processo mais simples. É somente estar existindo.

Dar conta deste problema, com suas labirínticas implicações, não é tarefa que tenha alguma facilidade. É um dolorido processo. Processo esse que é atravessado pelo signo da mutabilidade. Porque assim como o existir, conseguir responder aos problemas da existência é tentar resolver um quebra cabeça cuja a imagem a ser montada muda a cada encaixe das peças. Mesmo que a resposta de Roquetin, no seu monólogo existencialista, sumarize a questão, o seu processo de pensar nela é doloroso — e apaixonado. Há uma intensa paixão — não aquela que consola, afaga, mas a paixão dilacerante — no romance do filósofo francês.

Há também uma profunda paixão na obra de outra pensadora que ocupa-se com os aspectos da existência. Argonautas, de Maggie Nelson, talvez seja uma das obras mais importantes — e apaixonadas — dos últimos dez anos a pensar de forma honesta, pessoal e sincera a existência.

Vertida para o português por Rogério Bettoni e saindo pela Autêntica, Argonautas abriu — ao lado de Flor de Acafrão de Guacira Lopres Louro e Foucault e a teoria queer de Tamsin Spargo — a coleção Argos, que vai reunir uma série de títulos que discutem gênero e a teoria queer. Bettoni também coordena a coleção.

O livro de Nelson é uma miscelânea de sensações para quem se propõe a lê-lo e muito sinuoso para quem se prontifica a analisá-lo. A obra não se amarra num gênero — o que talvez seja uma ironia dos termos ou seja certa intencionalidade da autora: pode ser um ensaio memorialístico, anotações de leituras, autobiografia, uma carta de amor, ou somente um emaranhado, aparentemente aleatório, de lembranças — intelectuais e pessoais. Não dá para encaixar o trabalho de Nelson em nenhum lugar, o que é bastante oportuno já que ela vai discutir esse desencaixe diante das suas escolhas de vida.

Seu relacionamento com Harry Dodge, uma pessoa de gênero fluído que está em processo de transição física do arquétipo feminino para o masculino — “arquétipo” usado na sua acepção jungiana aqui, já que “masculino” e “feminino” podem estar inserido no conjunto de constructos fabulosos (como fábula mesmo) que impregnamos no imaginário coletivo e que não sejam, necessariamente, representações cristalinas da “realidade”; a premência da maternidade que chega e todas as nebulosidades que essa etapa da vida traz, sua produção intelectual, relatos da sua vivência estando num corpo feminino, as leituras que fez e que faz no percurso da produção do livro, análises de obras de artes: tudo isso está ali espalhado nas rápidas, mas não superficiais, páginas do livro de Nelson.

Mais do que qualquer outro aspecto que caracterize Argonautas, está ali a árdua tentativa — já previamente entendida como insuficiente — de pôr em palavras aquilo que não se pode exprimir. “Antes de nos conhecermos, passei a vida acreditando que o inexpressável está contido — inexpremivelmente! — no expressado, como dizia Wittgenstein.”, diz Nelson já na página de abertura. Há como expressar o inexpressável? Como conseguir transformar o não-físico das ideias, das sensações, em descrições justas com essas palavras não-existentes? Há muito de inexpressável nas memórias de Nelson. É uma jornada que acompanhamos ao virar de cada página. Jornada afetiva — conseguimos descrever o que é o sentimento amoroso? —, de linguagem — ela é capaz de explicar-se nos seus próprios termos? Ela é suficiente? —, de construção de uma persona que não se vê representada em nenhum dos modelos de personas que existe, é uma jornada de construção da desconstrução. Como construir uma existência que é estranha (queer) às outras? Há formas para dizer como é aquela existência que não se formata à forma nenhuma?

O livro de Maggie Nelson é a pulsação do afeto livre. Do afeto, do amor não aprisionado, da compreensão de que “o momento do orgulho queer é a recusa de sentir vergonha por testemunhar o outro com vergonha de você”. Há certa radicalidade interpenetrada nas reflexões que a poeta e crítica faz sobre gênero, educação infantil, casamento. É que precisa-se de radicalidade ao se firmar como sendo o que se é num mundo que não aceita outras formas de ser. No caminho que trilha, Nelson pensa com paixão e mescla, como Sontag e Barthes, sua experiência pessoal com sua vida intelectual. O resultado disso não poderia ser mais proveitoso para o leitor.

A escrita é o recurso de luta de Nelson. É nela que se debruça na tentativa de dar conta da fluidez da existência. Até mesmo o formato do seu livro é bem representativo dessa sensação: não há capítulos, não há divisões, não há tópicos, é apenas o intenso fluxo do pensamento derramado sobre a folha em branco, apropriando-se de outras ideias — com seus autores indicados nas margens do texto —, metabolizando tudo que lhe atinge e as somatizando para pavimentar o caminho das suas próprias ideias. A estrutura do livro é como se fosse uma alegoria do próprio existir, que transmuta-se, reformula-se, deglutindo todas as experiências que vive no percorrer do seu caminho sem preocupar-se em seguir a linearidade.

Argonautas também é uma obra sobre o amor. Uma declaração pungente de afeto e da sua performatividade pública. No ínterim do livro, há declarações amorosas diretas de Nelson para Harry, numa espécie de confissão epistolar. O artista, companheiro de Nelson, está passando por um processo transicional, ao mesmo tempo que Maggie está grávida. Duas transformações corporais, que vão reformular o que cada um deles é como ser humano. Enquanto Nelson toma seu hormônios por causa da gravidez, Harry toma testosterona para adaptar-se às mudanças pelas quais seu corpo passa. A relação, que se abre muito intimamente para o leitor, também passa por suas transformações. De repente a figura feminina de Harry transforma-se em masculina, as linhas do seu gênero são borradas. O impacto dessa mudança é sentido pelo casal no trato com as pessoas e isso exige uma posição de ambos para lidar com isso. O desafio que está posto é também da compreensão de que o sentimento amoroso não é fixo, de que não existe somente um “eu te amo”. Esse parágrafo, ainda nas primeiras páginas, exemplifica muito bem isso:

“Um ou dois dias depois da minha declaração de amor, hoje de uma vulnerabilidade brutal, eu te mandei o trecho de Roland Barthes por Roland Barthes em que Barthes descreve como o sujeito que diz ‘Eu te amo’ se parece com ‘o Argonauta que renova seu navio durante a viagem, sem lhe mudar o nome’. Assim como as partes do Argo, o significado de ‘Eu te amo’ deve ser renovado a cada uso da frase pelo amante, pois ‘a própria tarefa do amor e da linguagem consiste em dar a uma mesma frase inflexões sempre novas.'”

Maggie começa sua relação de uma forma, e se aprofunda nela vendo-se, depois, em outra. Com Harry se dá o mesmo. É uma pessoa que não vê sua existência encaixando-se em nenhuma das fôrmas que estão disponíveis. Há um tormento também nesse processo de Harry que atinge Nelson. “Você não acha que eu também estou preocupado? É claro que estou preocupado. Só não preciso da sua preocupação pesando em cima da minha. Preciso do seu apoio.”, diz Harry transcrito por Nelson. O que acontece com o casal é uma readequação interna de quem não quer se adequar à normatividade. E ver, através dos olhos de Nelson, esse processo sendo vivido pelo casal é uma poderosa experiência de leitura.

Queer é um termo que pode ser traduzido como “estranho”. Algo que não encontra equivalência nos modelos existentes, que mostra-se na sua estética — política, sexual, filosófica — alheia ao que se normatizou. O queer está na margem, porque não sujeita-se a nenhuma regra que o aprisione. Nesse espectro, Nelson entre uma página e outra vai pensar o sentido político da resistência queer, assim como reflete sobre seus privilégios enquanto mulher branca, e seus percalços por ser constantemente desacreditada devido ao seu gênero. Também vai trilhar alguns espinhosos caminhos como quando fala da homonormatividade, por exemplo.

“A homonormatividade me parece uma consequência natural da descriminalização da homossexualidade: quando algo deixa de ser ilícito, castigável, diagnosticado como doença ou usado como base legal para a discriminação pura ou para atos violentos, tal fenômeno igual deixa de representar a subversão, a subcultura, o underground, o marginal.”

Nesse caminho de heterodoxia do pensamento, Nelson constrói um livro belo. Há de se pensar que existe uma carência de belo no ato de pensar. Pensa-se habitualmente com sisudez, com uma escrita áspera, dura, distante. Na contramão disso, Nelson dialoga com a poesia, com a escrita-dança, com a escrita-performance, com — para usar a feliz expressão de Mariana Lage — o avesso da palavra. É essa busca da expressão do que não se pode exprimir que costura todas as possibilidades que o livro de Nelson oferece. É um livro múltiplo, carregado de diversas vias possíveis — e algumas outras quase improváveis.

Retomando Sartre e o seu Roquetin, existir é essa contingência, algo que pode ou não ser, mas que, no meio de tudo isso, ela é. Existir, nas suas múltiplas categorias, nos seus inúmeros jeitos, nas suas incontáveis formas. A resistência da existência estranha é a resistência da ousadia. Nisso Nelson não deixa brecha. Em Argonautas ela declara em bom tom que existe, que quer poder viver — com Harry, sua cria, sua produção intelectual, consigo mesma — de forma livre. Esse trabalho é exatamente isso: uma declaração de liberdade. Estar aqui, existindo genuinamente, com a liberdade de também ser uma existência estranha, uma existência queer.

A imagem utilizada para ilustrar essa postagem é a obra “Ataque Automático” do artista Milton Kurtz.

 

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