O exorcismo dos afetos

Um amor incômodo é o primeiro romance de Elena Ferrante. Sua leitura vale exatamente como uma análise dos elementos que comporiam a melhor parte da obra da escritora italiana. Todos os recursos que se tornariam clássicos nos romances de Ferrante já estão de forma embrionária neste seu primeiro, mesmo que seja numa elaboração menos complexa: as lembranças como gatilhos para reflexões da vida, o conflito pessoal da protagonista, fortes conclusões sobre o sentimento amoroso, a posição das mulheres, sua necessidade de enfrentamento de demônios do passado, seus exorcismos e suas relações com os ambientes de infância, sempre em primeira pessoa e com uma narradora feminina.

Lançado no Brasil pela editora Intrínseca na tradução de Marcello Lino, Um amor incômodo é a história de Delia que volta para sua terra natal, Nápoles, já uma senhora nos seus quarenta anos, para cumprir uma missão fúnebre: enterrar a própria mãe. A relação de Delia com a mãe Amalia, fora envolta numa série de problemas e não era das mais agradáveis e ternas. Contudo, na sua estadia em Nápoles para providenciar os detalhes para o enterro de Amalia, Delia entra em contato com vários acontecimentos que revelam como foram os últimos dias de sua mãe e muito sobre os seus erros do passado.

É nesse momento que define-se muito bem os contornos temáticos que Ferrante abordará na sua primeira trama mais extensa. A “estranheza recíproca”, expressão de Delia para definir sua relação com a mãe, era profunda, e tinha se enraizado com a distância entre as duas. Ao encontrar o corpo frágil de sua mãe, que afogou-se no mar, tudo que viveram como mãe e filha retornou com força à memória de Delia, que precisou expurgar essas lembranças.

Delia passara a vida tentando desvencilhar-se de seu passado, estabelecera limites para sua solidão, incrustara-se em si como forma de estabelecer certa segurança no seu trato com o mundo. Muito disso era consequência da forma que traçara a sua relação afetiva com a mãe. Numa gama de mentiras e afeições escamoteadas, Amalia e Delia fundiram-se naquilo que as duas tentavam se separar.

Elena Ferrante costura esse enredo com uma elegância imensa para uma obra de estreia. Sua escrita mostra-se comedida, ela dita um ritmo em que vai intercalando lembranças e acontecimentos recentes com um grande domínio da trama. O caminho que traça para Delia é de ordem psicológica, em que vai permitindo com que as pontas soltas que Amalia deixara na vida da filha sejam entremeadas entre si de forma orgânica na narrativa. Nenhum elemento ali mostra-se desnecessário. É uma narrativa enxuta que sustenta-se naquilo que ela tem de melhor: a sobriedade.

Mais do que somente um romance que trate de uma problemática relação de mãe e filha, o romance de Ferrante é também uma abordagem feminista sobre as relações entre mulheres. Ao longo de todo o romance, Delia vai compreendendo a maneira como as mulheres do seu bairro, da sua cidade, eram postas a serviço das necessidades masculinas; como serviam para atenuar suas existências, e — penso que esse seja o pronto crucial dessa perspectiva de leitura da obra — sobre como eram postas em zonas para conflitar-se entre si.

Delia e Amalia foram postas, pelo sistema patriarcal dominante na Nápoles dasua época, a estar em pólos opostos. Ao mesmo tempo que as linhas dessa fronteira vão se tornando menos nítidas, também Delia consegue intuir, em diversos momentos durante o romance, sua semelhança com Amalia. Como na cena da loja, quando vai trocar um vestido que sua mãe deixara e mostra a foto de Amalia, e é tratada de forma grosseira pelo gerente da loja que ao ver a foto irrita-se achando que aquilo era alguma brincadeira. “Arranquei o documento das mãos dele com um desprezo calculado e, para entender o que o deixara tão nervoso, dei uma olhada na foto três por quatro da minha mãe. Os cabelos barrocamente arquitetados sobre a testa e em volta do rosto tinham sido minunciosamente raspados no papel. O branco que surgiu em volta da cabeça foi transformado com um lápis em cum cinza nebuloso. Com o mesmo lápis, alguém havia endurecido ligeiramente os traços do rosto. A mulher da foto não era Amalia: era eu”.

Ao revisitar suas lembranças da infância, ao fazer um escrutínio da relação Amalia tivera com seu pai — um casamento calcado no abuso, na violência física e psicológica, na mútua depreciação, no ciúmes doentio —, Delia pôde vislumbrar todos os elementos que forjaram o comportamento que ela julgava repulsivo em sua mãe.

Ferrante coloca isso em cheque e delimita uma abordagem muito segura ao também cobrar do leitor uma postura. O leitor não consegue passar incólume pelo curto romance de Ferrante. Ele também é posto em cheque, é convidado a largar suas certezas e revisitar seu julgamentos.

Ao confrontar suas lembranças passadas de Delia com as revelações do presente sobre Amalia, Ferrante propõe um exorcismo dos afetos. Hora de expurgá-los, torná-los outros, reformulá-los, ou exterminá-los e dar espaço para novos sentimentos.

No jogo de espelhos que Ferrante cria neste seu romance, o que fica claro é que nem sempre as certezas estão certas, nem sempre podemos confiar no nosso próprio julgamento do mundo e que talvez sejamos nós a manifestação das falhas que enxergamos nos outros.

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