O fascismo europeu e o Vaticano

Em 2002 o papa João Paulo II autoriza a abertura dos arquivos correspondentes ao papado de Pio XI. Esta foi a oportunidade para o cientista social David Kertzer explorar a relação da Igreja Católica com os acontecimentos que explodiram no mundo nas décadas de 1920/1930 que desembocariam na Segunda Guerra Mundial. Este momento da história é particularmente delicado para a Igreja Católica e suscita debates acalorados entre historiadores de diferentes correntes na leitura da postura da igreja nesse período.

Delimitando como campo de pesquisa a relação da Igreja com o nascimento e recrudescimento do fascismo europeu, acentuadamente o italiano, Kertzer passou sete anos investigando os arquivos liberados pela Igreja e escreveu O Papa e Mussolini, que ganhou o prêmio Pulitzer de Biografia. Traçando uma linha cronológica muito bem estruturada, o pesquisador americano narra o surgimento tanto de Papa XI, o caminho que trilhou para sua chegada no papado, quanto de Mussolini e como ele se tornou produto de uma Itália em frangalhos, desacreditada, e encarnou a esperança de uma renovação nos rumos do país.

Os dois sujeitos não poderiam ser mais diferentes um do outro: Mussolini, um fascista anticlerical, que abominava a igreja e os seus ritos, tinha pavor de padres e homens de bata, truculento, profano, profundamente violento e rude; e Achille Rati, o papa Pio XI, um dedicado devoto, culto, bibliotecário — e posteriormente diretor — da prestigiosa Biblioteca de Ambrosiana de Milão, depois tornando-se prefeito da Biblioteca do Vaticano. Enviado a Polônia por Bento XV como núncio papal, viu a invasão do Exército Vermelho e a partir de então passou a nutrir um ódio ferrenho contra os comunistas que durou sua vida inteira.

Mesmo sendo os dois tão discrepantes entre si, ambos compartilhavam duas características que tinham em comum e que os tornou, ainda que a contragosto, protagonistas de uma das parcerias mais sinistras e oscilantes entre dois líderes políticos e sociais da história: o primeiro era o ódio completo e irrefreável contra os comunistas, e o segundo era a plena descrença na democracia. Foram esses dois tópicos que possibilitaram o trabalho em conjunto, mesmo que conflituoso nos bastidores, de ambos.

Na sua investigação a respeito dessa relação nebulosa entre o santo Padre e o primeiro ministro italiano, Kertzer elabora uma narrativa oposta a história convencionada de que a Igreja posicionou-se como opositora dos regimes ditatoriais surgidos a partir da década de 1920.

Fundamentado em farta documentação, muitas deles provindos de relatórios confeccionados pelos diversos infiltrados na Santa Sé, o sociólogo consegue sedimentar a tese de que foi graças a articulação feita entre Igreja e Fascismo que muito dos mais tenebrosos acontecimentos da história recente da humanidade puderam ser levados a cabo sem grandes oposições ou com resistências laterais e tangentes.

Dividido em três partes ao longo de 29 capítulos, o trabalho de Kertzer inicia trazendo o contexto de surgimento tanto da carreira pontifícia de Pio XI, um humilde padre nascido no interior da Itália que depois tornara-se homem de confiança de Bento XV que o nomeou cardeal assim que Achille volta da Polônia, quanto de Mussolini, fruto de uma família modesta da pequena Romanha e um dos mais ferrenhos e radicais socialistas do país no começo do século XX, corrente ideológica que rompeu logo após a Grande Guerra se estabelecendo, a partir de 1919, como o maior ícone do fascismo de todos os tempos.

Na segunda parte da obra, Kertzer vai explanar a respeito dos inimigos em comuns compartilhados entre Mussolini e Pio XI. Uma das grandes preocupações da Igreja era da perda de poder de influência sobre os italianos. Os tempos estavam mudando e muitas das regras de séculos da igreja corriam o risco de cair no desuso, na banalização, graças aos avanços de ideias progressistas. Temendo que a Igreja enfraquecesse, Pio XI articula com Mussolini medidas que atravanquem esses processos deflagrados, segundo o santo padre, por inimigos perniciosos, tais quais os protestantes, os judeus e os comunistas. Foi a preocupação com os protestantes, inclusive, o fator responsável por promover o único encontro pessoal entre o primeiro ministro italiano e o papa, que aconteceu em fevereiro de 1932. Isso indica tamanha a preocupação que o pontífice tinha com esta pauta. Os judeus eram outro alvo muito antigo da Igreja. Tidos como maléficos e componentes de uma grande trama global para o domínio do mundo, os judeus eram a grande ameaça ao catolicismo e ao cristianismo no mundo. Por mais curioso que fosse, essa não era uma preocupação prioritária para Mussolini, que dedicava sua atenção para descobrir formas de fortalecer o fascismo na Itália com zero de oposição. Este cenário muda graças a interferência de outra figura com mais impacto também surgida nesse período: Adolf Hitler.

É na terceira parte do livro de David Kertzer que o fator Hitler surge com mais detalhes. “Enquanto Mussolini exibia um busto de Napoleão em seu estúdio, Adolf Hitler, que se tornou chanceler da Alemanha em janeiro de 1933, mantinha, havia muito, um busto de Mussolini no seu”, registra o sociólogo, indicando como era enxergada a figura do líder italiano pelo nazista alemão. Mussolini não levava Hitler a sério, e o vê apenas como um “palhaço” e lunático capaz de inflamar as massas com seus discursos efusivos.

No entanto, depois da sua visita a Alemanha e de constatar a influência poderosa do seu discípulo, a relação entre Mussolini e Hitler torna-se estreita e o primeiro ministro italiano começa a emular algumas medidas alemães contra as minorias em território italiano. Enquanto isso, Pio XI se enfurecia com Benito, pois via o risco que era estabelecer esse tipo de concordata com os nazistas. Além disso, o papa e a Igreja tinham grandes problemas com os nazistas, pois estes eram publicamente anti-católicos — mesmo com diversas alianças feitas com o alto clero alemão — e isso gerou diversos desgastes entre a Santa Sé e Mussolini. Mesmo que estes desentendimentos acontecessem nos bastidores, nunca houve qualquer pronunciamento público do papa sobre todas as atrocidades que se desenrolavam no período do seu papado — silêncio que permaneceu com seu sucessor também.

Um dos marcos históricos estabelecidos entre Mussolini e Pio XI foi a assinatura do Tratado de Latrão, sendo este talvez o maior feito de ambos. Na Idade Média, a Igreja Católica recebera do Rei Pepino, o Breve, um amplo conjunto de terras na península itálica nas quais estabeleceu sua sede. Estes territórios ficaram conhecidos como Estados Pontifícios e estiveram sob o domínio da igreja até 1870 quando o rei Vítor Emanuel II os incorporou ao reino da Itália. Esse acontecimento provocou uma enorme celeuma com a igreja, mesmo que o rei tenha oferecido compensações — como a permanência do papa como chefe do Estado Romano — que não foram aceitas e que desembocaram na auto-declaração do papa Pio IX como prisioneiro do estado laico, gerando assim a conhecida Questão Romana.

Depois de uma larga e longa negociação, um tratado foi formulado oferecendo o status de Estado para o Vaticano, com todos os direitos de uma nação independente e resguardando os privilégios da Igreja. O tratado foi assinado por Mussolini e Pietro Gasparri, o secretário de Estado da Santa Sé e braço direito do Papa XI — junto com seu maior articulador, o mensageiro secreto do papa, o jesuíta Tacchi Venturi. Além da territorialidade, outros tópicos do tratado dissertavam sobre posição do catolicismo como religião oficial da Itália, como também o ressarcimento financeiro das perdas territoriais da Igreja. O Tratado de Latrão — que no decorrer dos anos sofreu diversas modificações, mais afeitas as demandas modernas — foi um dos pontos altos dessa relação entre o Pontífice e Mussolini.

O trabalho de Kertzer ainda aborda uma série de detalhes a respeito de como se dava a silenciosa queda de braço entre o líder italiano e o santo Padre — sujeitos de temperamentos difíceis e duros. Com um amplo levantamento documental — mais de duzentas páginas do livro são de volumosas notas —, O Papa e Mussolini é uma obra de fôlego que consegue aliar um estilo de escrita fluído com um rigor histórico necessário para um livro dessa envergadura.

Além disso, o trabalho também serve, como todas as boas obras históricas, para relembrar o contexto político-social que podem tornar propício o surgimento forte e robusto de ideias fascistas e ideologias violentas. O trabalho de Kertzer é fundamental e necessário, tanto para um compreensão do passado como uma prevenção para o futuro.

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