A Fluidez da Estranha Existência

Maggie Nelson e os caminhos para entender o que é a existência queer

Antoine Roquetin, personagem-narrador de A Náusea de Jean-Paul Sartre, imerso em suas reflexões a respeito dos problemas que envolvem o fato de existir diz que “o essencial é a contingência (…) Existir é simplesmente estar aqui”. Encuca muito pensar nessa afirmação feita num dos mais importantes romances do século passado. O que define uma existência? Há na Filosofia muitas respostas para essa pergunta. Muitas delas nos suscitam mais indagações, algumas — que se pretendem definitivas — deixam a sensação da ausência de algo, e outras não dizem nada apesar ocupar imensos volumes de tratados filosóficos. Porém é a resposta sartreana que parece sintetizar a ideia de que certas complexidades que infligimos sobre o existir não passam de recursos de aprisionamento, que na verdade existir, essencialmente, é um processo mais simples. É somente estar existindo.

Dar conta deste problema, com suas labirínticas implicações, não é tarefa que tenha alguma facilidade. É um dolorido processo. Processo esse que é atravessado pelo signo da mutabilidade. Porque assim como o existir, conseguir responder aos problemas da existência é tentar resolver um quebra cabeça cuja a imagem a ser montada muda a cada encaixe das peças. Mesmo que a resposta de Roquetin, no seu monólogo existencialista, sumarize a questão, o seu processo de pensar nela é doloroso — e apaixonado. Há uma intensa paixão — não aquela que consola, afaga, mas a paixão dilacerante — no romance do filósofo francês. Continuar a ler

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Os Excluídos da História – Michelle Perrot

A concepção de que a História — esta com H maiúsculo —, enquanto entidade detentora do poder de narrativa que apresenta às gerações posteriores os feitos, os principais acontecimentos, conquistas e processos evolucionais (tecnológicos e sociais) das gerações anteriores é tido como um ponto pacífico. Nos últimos 60 anos principalmente — com a ressalva das tentativas que foram pioneiras e que constam de pelo menos um século antes — tem-se contestado essa perspectiva. Se a história é o registro dos fatos que atravessam-na, hoje se trabalha com o conceito de “local de fala”, que altera por completo as ideias basilares da narrativa histórica clássica.

Tão familiar ao leitor que singra os tenebrosos setores das redes sociais, o conceito de “local de fala” se popularizou. Como todo conceito fechado nas áreas de discussão da academia, o da fala e do seu posicionamento sócio-econômico-cultural sofreu distorções que se flexibilizaram de acordo com os objetivos do grupos que lhe fizeram uso. No entanto, não é intenção deste curto e introdutório texto entrar no debate do conceito e resguarda-se de não fazer caminho nesta seara. O que nos interessa aqui é tão somente a compreensão de que também a história foi composta a partir de uma perspectiva social específica — uma outra não-novidade. Continuar a ler

A Invenção de Morel — Adolfo Bioy Casares

A ideia da sua vida se repetindo inúmeras vezes é incômoda para você? O filósofo alemão Nietzsche imaginou essa cena da seguinte forma: um anjo/demônio surge e lhe anuncia que sua vida, exatamente como ela aconteceu até aquele momento, irá se repetir ad infinitum com todos os percalços, acertos e erros, felicidades e tristezas. Você teria coragem de encarar sua existência, da exata forma que ela tem hoje, eternamente?

Outro pensador que ocupou-se com isso de pensar o real e a vida, a existência como projeção de algo que ela pode não ser foi o grego Platão que formulou a ideia do mundo ideal — ou mundo das ideias —, onde tudo que vemos aqui existe de forma perfeita e plena em outro lugar. Esse mundo onde vemos e tocamos as coisas, ele é apenas uma cópia mal formulada do mundo ideal, é uma versão deformada dessa realidade perfeita. A grosso modo seria como se morássemos numa Matrix programada para emular uma realidade que não é em si, é somente uma cópia. Uma cópia sem originalidade — com os riscos que podemos adotar em pensar o que diabos é algo original. Continuar a ler

Nossas Noites – Kent Haruf

A imagem do amor, do poder amar, da intensidade da paixão, é sempre uma imagem jovem. No enaltecimento eterno da eterna juventude, congelamos o amor nessa jovial figura. Quando crianças, não temos idade para compreender a complexidade que é esse sentimento, quando velhos, pensamos que já estamos nas últimas linhas do nosso caderno e não nos preocuparemos com mais nada que não seja sobreviver a mais um dia. Anulamos a terceira parte da vida, como se ela fosse apenas um acréscimo e não uma das mais fundamentais etapas da existência.

Pensar o amor na velhice costuma ser um exercício nostálgico, apenas de rememorar bons relacionamentos vividos ao longo do tempo. Parece não haver espaço para algo novo, uma repentina vivência da descoberta. Mas há, e o escritor norte-americano Kent Haruf — morto em 2014 — mostra-nos isso magistralmente no seu último trabalho, o romance Nossas Noites publicado pela Companhia das Letras na tradução de Sonia Moreira. Continuar a ler

Cenas Londrinas — Virginia Woolf

Virginia Woolf como guia turística. É a sensação que se tem ao ler esse seu Cenas Londrinas, publicado no Brasil pela José Olympio na tradução de Myriam Carvalho. Esse conjunto de pequenos ensaios sobre Londres é o retrato do amor de Woolf pela capital da Inglaterra — que já se demonstra quando a cidade é cenário de algumas das suas maiores obras ficcionais.

O lançamento se dá pela descoberta da crônica que fecha o ciclo das The London Scene, e que é o último texto da coletânea. Escritos entre os anos de 1931 e 1932, as cenas de londres são rápidos textos que descrevem os passeios de Virginia Woolf por Londres. O olhar da autora é fotográfico e cada texto guarda texturas únicas de como Woolf percebia aquela cidade inglesa do começo do século passado. Continuar a ler