O fascismo europeu e o Vaticano

Em 2002 o papa João Paulo II autoriza a abertura dos arquivos correspondentes ao papado de Pio XI. Esta foi a oportunidade para o cientista social David Kertzer explorar a relação da Igreja Católica com os acontecimentos que explodiram no mundo nas décadas de 1920/1930 que desembocariam na Segunda Guerra Mundial. Este momento da história é particularmente delicado para a Igreja Católica e suscita debates acalorados entre historiadores de diferentes correntes na leitura da postura da igreja nesse período.

Delimitando como campo de pesquisa a relação da Igreja com o nascimento e recrudescimento do fascismo europeu, acentuadamente o italiano, Kertzer passou sete anos investigando os arquivos liberados pela Igreja e escreveu O Papa e Mussolini, que ganhou o prêmio Pulitzer de Biografia. Traçando uma linha cronológica muito bem estruturada, o pesquisador americano narra o surgimento tanto de Papa XI, o caminho que trilhou para sua chegada no papado, quanto de Mussolini e como ele se tornou produto de uma Itália em frangalhos, desacreditada, e encarnou a esperança de uma renovação nos rumos do país. Continuar a ler

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O tempo que não nos pertence

No livro O palácio da memória (Todavia, 2017), o radialista Nate DiMeo narra a história do fascínio que o pai do rádio, o italiano Guglielmo Marconi, com a ideia de que as vibrações do som propagavam-se eternamente, apenas perdendo um pouco da intensidade com o tempo e que, mesmo assim, captando na frequência certa, seria possível ouvir tudo o que já foi dito no mundo — Shakespeare ensaiando com um ator ou o sermão da montanha tal como fora proclamado por Jesus.

Marconi era defensor da ideia da eternidade do som, da sua perenidade, como se todas as palavras ditas no mundo formassem um palimpsesto sonoro ainda possível de se montar e remontar, e ser ouvido ad infinitum. A história de Marconi evoca esta concepção que encara a passagem do tempo como um acumulador de experiências, onde tudo se constitui e se formata por um eco temporal tal qual um efeito borboleta. Continuar a ler

A Zona de Conflito Amorosa

O protagonista do mais recente romance do escritor brasileiro Bernardo Carvalho atua há mais de trinta anos em zonas de conflito ao redor de mundo, como funcionário de uma agência humanitária. Rato, nome do personagem, se vê, depois de anos em áreas de alto nível de periculosidade, posto diante de uma missão peculiar: resgatar um misterioso refém, mas sob condições completamente adversas. Dessa vez ele não iria negociar com os sequestradores, não iria entrar em contato com eles de forma direta, não iria como funcionário da agência para qual trabalhou quase toda a vida. Iria só, sem qualquer auxilio ou recurso de emergência.

Absorto ao ouvir do diretor da agência a proposta quase suicida de resgate, Rato também aceita a condição cabal para executar a nova missão que lhe fora designada: para desatrelar qualquer ligação sua com a agência e os países que a financiam, ele precisa ser demitido. A aceitação de Rato para o absurdo que lhe é proposto é completamente subserviente. Continuar a ler

O retrato da decadência

Um título simples pode revelar um projeto narrativo poderoso, alegórico e múltiplo. Acre, de Lucrecia Zappi, é este tipo de romance de costura tão bem trançada que fazer o desnovelo das suas possibilidades é mais do que apenas uma experiência de leitura, é um prazeroso exercício de cavar interpretações e de descoberta de múltiplos níveis narrativos que podem estar na óbvia superfície dos acontecimentos do enredo ou nas entrelinhas que não se dão de bandeja para o leitor mais afoito.

O segundo romance de Zappi é um ping pong da memória. Ao contar a história de Oscar e Marcela — ele o narrador, ela a protagonista dúbia —, a autora nascida na Argentina radicada brasileira, e que hoje mora nos Estados Unidos, vai desnudar temas clássicos da literatura nacional — a insegurança masculina, o ciúme, a decadência moral e ética de uma classe média emergente — com bastante segurança. Continuar a ler

Um Típico Grunberg

Ao ler Tirza, ficava clara a metáfora da inadequação e a forma como Grunberg conduz isso na costura da trama permite coletar diversos indicativos de uma estrutura completamente voltada para a clausura em que o leitor se enreda e da qual não consegue se desvencilhar.

No seu segundo romance, publicado no Brasil pela Rádio Londres com tradução de Mariângela Guimarães, a sensação é a mesma. A claustrofobia no centro nervoso do enredo continua imperando. Ao contrário do homem de meia idade de Tirza, em O homem sem doença encontramos o jovem Samarendra, arquiteto nascido em Zurique que aparenta acreditar na arquitetura como elemento de impacto social positivo. Tem uma namorada, mora com a mãe e a irmã que sofre de uma síndrome rara que lhe impossibilita os movimentos do corpo. Porém, sua vida não tem nada muito fora da curva da normalidade. Continuar a ler