A Invenção de Morel – JP. Mourey e A. Bioy Casares

1corpoainvencaodemorelUm fugitivo condenado à prisão perpétua pela Justiça chega sozinho a uma ilha deserta. Nos primeiros dias crê estar só na ilha, que não apresenta nenhum sinal de ocupação por outras pessoas, com exceção de algumas construções abandonadas. Contudo, passado alguns dias, depara-se com alguns veranistas finamente trajados que espalham-se pela ilha, um amplo complexo de construções, com máquinas imbricadas e de aspecto tecnológico avançado. Estranhando essas presenças inusitadas, o narrador da história passa a observar, à revelia, seus passos e percebe alguns padrões comportamentais se repetindo, como se todos os diálogos travados entre eles fossem ensaiados. Intrigado com essa repetição milimetricamente orquestrada, e influído por uma paixão cega pr uma das veranistas, o protagonista vasculha a labiríntica mansão instalada no meio da ilha e depara-se com a resposta para suas dúvidas. É então que um inteligente e imbrincado invento, criado pelo personagem Morel, desvela-se, colocando-o numa situação de escolha: quebrar com aquela perpetuidade ou mantê-la. Continuar a ler

Uma Breve História do Tempo – Stephen Hawking

ROEDORumabrevehistoriadotempoA engessada percepção de que ciência é para iniciados e os assuntos que trata são esotérico demais para os meros mortais, é matéria passada e vencida. Diversos livros de ciência – tornados clássicos graças ao tempo, a crítica e, principalmente, o público em geral -, já fazem parte do imaginário coletivo da humanidade. Um livro de matéria complexa alcançar esse feito, não é um mérito desprezível ou, mesmo hoje, comum. E um dos clássicos da literatura científica que ainda nos assombra pela domínio da habilidade de comunicar o complexo em termos simples e acessíveis, e que continua impactando novos leitores, cada vez mais ávidos e curiosos – que não são nunca decepcionados -, é o “Uma Breve História do Tempo” (Intrínseca, trad. Cássio de Arantes Leite) do físico teórico britânico Stephen Hawking.

Stephen, como é do conhecimento geral, é um icônico cientista que alcançou o ápice da fama, ombreando com astros pops, graças a sua forma menos austera ao tratar de assuntos científicos e por realizar importantes descobertas nos campos da Física e da Cosmologia. E tudo isso tendo que lidar com as sérias dificuldades que a Esclerose Lateral Amiotrófica, conhecida pela sigla ELA, que é uma doença degenerativa que inutiliza a estrutura física do corpo sem afetar as funções cerebrais. A doença não se evidenciou como barreira intransponível e nem afetou a produtividade de Hawking, que manteve suas pesquisas e adotara como missão traduzir as imbricadas teorias do mundo da ciência para o público leigo. Continuar a ler

Eu, cowboy – Caco Ishak

Eu Cowboy - Roedor de LivrosHoje a palavra da vez é “autoficção”. É a crista da onda, é onde todos estão encontrando seu refúgio seguro. Não é uma novidade. Como tudo nesse mundo, é apenas algo já amplamente usado que hoje adota novas roupagens e com aquele irritante e grudento trabalho de marketing (que empurra goela abaixo muito coisa ruim com boa capa). Temos os comandantes desse bonde. O mais proeminente, cantado nos quatro cantos do mundo como o novo Proust é o norueguês Karl Over Knausgård, autor da série “Minha Luta”. Ele é a ponta do iceberg que só se amplia, seja dos autores que se espalham em pequenas editoras, seja por causa de resenhistas que dão voz a obras que acabam por não alcançar um público de forma satisfatória. O problema de uma onda que se espalha tão vertiginosamente, como está sendo essa dos autoficcionalizadores, é que livros ruins se espalham aos montes também (e achar os bons acaba se tornando uma tarefa um cado mais árdua). E as editoras e os leitores de percepção rasa dão mais espaço ainda para essas figuras. Porém, cá quero falar de um raro bom exemplo de um livro que se encaixa nesse multiverso da autoficção: Eu, Cowboy do paraense Caco Ishak. Continuar a ler

No mundo dos livros – José Mindlin

“Num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver”

[Uma vida entre livros: reencontros com o tempo. Prefácio de Antonio Candido. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 22]

No Mundo dos LivrosA bibliofilia, como toda obsessão, é uma paixão incompreendida. Muito mais ainda por essas nossas plagas, onde ler é hábito de excêntricos. Por aqui, ler, por si só, já é motivo de estranhamento. Imagine ser um leitor ávido, compulsivo, disciplinado, e um acumulador dedicado! Há nisso ainda mais estranheza. Não bastasse ser leitor, inventa-se também ser bibliófilo. Aquele que carrega em si uma missão muito pessoal de amor aos livros, que é tê-los aos montes. Me pego sempre olhando para meus livros e achando que ainda os tenho em pouca quantidade, por mais que as prateleiras lhes faltem e as pilhas de livros não-lidos se multipliquem em velocidade muito maior em relação aos lidos. Por isso me vi sentindo grande felicidade quando me caiu às mãos o livro de José Mindlin, um dos mais ferrenhos e importantes bibliófilos do país.

Nesse seu pequeno livro, o imortal José Mindlin (foi eleito para a cadeira 29 da Academia Brasileira de Letras em 2006), que começou seu “hobby” aos trezes anos, fala, em linhas gerais sobre a importância de leitura, as obras clássicas que recomenda, tanto de ficção quanto de não-ficção, como iniciou sua imensa biblioteca (das particulares, uma das maiores), como fazia para garimpar as obras raras (que fizeram a fama de seu acervo) e finaliza com leituras variadas, que julga importante indicar. Continuar a ler

O Burrinho Pedrês – Guimarães Rosa

O Burrinho Pedrês - Guimarães Rosa“Tenho medo de tentar comparações. Não direi, por isso, que a obra de Guimarães Rosa é a maior da literatura brasileira de todos os tempos. Direi porém, que nenhum outra, de nenhum escritor, me deu até hoje, entre brasileiros, a mesma ideia de tratar-se de criação absolutamente genial”.

Não tivesse emparelhado com Machado de Assis, concordaria cem porcento com Sérgio Buarque de Holanda. Guimarães é, indiscutivelmente, um dos mais profundos e, simultaneamente, um dos mais populares – no sentido próprio do termo, que se refere àquilo que se aproxima do povo – escritores das letras tupiniquins.

Seja por sua força narrativa, por sua grandiosidade linguística, sua superioridade reflexiva, ou outras mil qualidades de sua obra, Guimarães Rosa é um dos mais completos e complexos – no que tange a complexidade, depende-se de onde se lê, pois o considero “simples” e cristalino – autores da literatura nacional. Mais do que isso: está sem pé de igualdade com os gigantes do cenário literário mundial. Sua inventividade ficcional em nada deve, por exemplo, aos mais bem acabados textos joyceanos. Enfim, Guimarães Rosa é um gênio ímpar. Prova rápida e impactante dessa afirmação está contida na história d’O Burrinho Pedrês. Continuar a ler