trecho: A Morte do Gourmet

Há duas categorias de passantes. Primeiro, a mais coerente, embora comporte matizes. Jamais cruzo o olhar deles, ou então fugazmente, quando me dão uma moeda. Às vezes dão um sorrisinho, mas sempre com certo constrangimento, e se esquivam num piscar de olhos. Ou não param e passam o mais depressa possível, com sua consciência pesada que os importuna por cem metros – cinquenta antes, quando me viram de longe e se apressaram em atarraxar a cabeça virada para ou outro lado, até que, cinquenta metros depois do maltrapilho, ela reencontre sua mobilidade costumeira -, em seguida me esquecem, voltam a respirar livremente, e o aperto no coração, de pena e vergonha que sentiram, progressivamente se esfuma. Esses, eu sei o que dizem, à noite, voltando para casa, se é que ainda pensam no assunto, em algum canto do inconsciente: “É terrível, tem cada vez mais, isso me parte o coração, eu dou, é claro, mas depois do segundo eu paro, sei, é arbitrário, é horrível, mas a gente não pode dar sem parar, quando penso nos impostos que pagamos, não somos nós que deveríamos dar, o Estado é que está falhando, é o Estado que não cumpre seu papel, e ainda temos que nos dar por felizes de ter um governo de esquerda, senão seria pior, bem, o que é que vamos comer no jantar, massa?”

Esses aí, estou cagando e andando para eles. E ainda estou sendo bem-educado. Que se danem, esses burgueses que brincam de socialistoides, que querem tudo e mais alguma coisa, a assinatura do teatro do Châtelet e os pobres salvos da miséria, o chá da loja Mariage e a igualdade dos homens na Terra, suas férias na Toscana e as calçadas livres dos espinhos de seus sentimento de culpa, pagar a faxineira sem registrá-la e ser ouvidos quando lançam suas tiradas de defensores altruístas. O Estado, o Estado! É o povo analfabeto que adora o rei e só acusa os maus ministros corruptos de todos os males de que sofre; é o Poderoso Chefão que diz a seus esbirros: “Este homem é um mal-encarado” e não quer saber que o que acaba de ordenar, assim por meias palavras, é sua execução; é o filho ou a filha humilhados que xingam a assistente social que pede satisfação aos pais indignos! O Estado! Como o Estado tem costas largas quando se trata de acusar o outro que não é senão ele mesmo!

 

A morte do Gourmet – Muriel Barbery (Companhia das Letras, 2009, trad. Rosa Freire d’Aguiar)

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trecho: Crepúsculo dos Ídolos

Ninguém é responsável por existir, por ser constituído desta ou daquela forma, por estar nessas circunstâncias, nesse ambiente. A fatalidade de seu ser não pode ser separada da fatalidade de tudo o que foi e será. Ele não é a consequência de uma intenção própria, de uma vontade, de uma finalidade; com ele não é feita a tentativa de alcançar um “ideal de homem” ou “ideal de felicidade” ou um “ideal de moralidade” – é absurdo querer rolar o seu ser na direção de uma finalidade qualquer. Fomos nós que inventamos a noção de “finalidade”: a finalidade está ausente da realidade… Somos necessários, somos um fragmento de destino, pertencemos ao todo, estamos no todo – não há nada que possa julgar, medir comparar e condenar o nosso ser, pois isso significaria julgar, medir, comparar e condenar o todo… Mas não há nada fora do todo! – Que ninguém mais seja responsabilizado, que não seja lícito explicar o tipo de ser mediante uma causa prima, que o mundo não constitui uma unidade nem como sensório nem como “espírito, apenas essa é a grande libertação – apenas assim a inocência do devir é restaurada… O conceito de “Deus” foi até agora a maior objeção à existência… Negamos a Deus, negamos a responsabilidade de Deus: apenas assim libertamos o mundo.

Crepúsculo dos Ídolos – Friedrich Nietzsche (L&PM Pocket, 2011, trad. Renato Zwick)

trecho: a misteriosa chama da rainha Loana

“[…]’Os fascistas sempre existiram. Desde os tempos… desde os tempos de Deus. Pegue Deus. Um fascista.’

‘Mas você não é ateu, não diz que Deus não existe?’

‘Quem disse isso? Dom Cognasso, que não entende nada de porra nenhuma? Eu acredito que Deus existe, infelizmente. Só que é um fascista.’ […]

A liberdade é uma coisa bela entre homem e homem, você não tem direito de me fazer agir e pensar o que quiser. E os nossos companheiros eram livres para decidir se deviam ir para as montanhas ou esconder-se em algum lugar. Mas a liberdade que Deus nos deu, que liberdade é essa? É a liberdade de ir para o paraíso ou para o inferno, sem alternativas. […]

Se Deus é ruim, podemos ao menos tentar ser bons, perdoar-nos uns aos outros, não nos ferir mutuamente, cuidar dos doentes e não nos vingarmos das ofensas. Ajudar-nos entre nós já que aquele lá não nos ajuda. Entendeu como era grande a ideia de Jesus? E quem sabe como Deus ficou irritado. Jesus é o único verdadeiro inimigo de Deus, nada de diabo. Jesus é o único amigo que nós, pobres cristos, temos.”

A Misteriosa Chama da Rainha Loana – Umberto Eco (Record, 2005, 447 páginas)