Cenas Londrinas — Virginia Woolf

Virginia Woolf como guia turística. É a sensação que se tem ao ler esse seu Cenas Londrinas, publicado no Brasil pela José Olympio na tradução de Myriam Carvalho. Esse conjunto de pequenos ensaios sobre Londres é o retrato do amor de Woolf pela capital da Inglaterra — que já se demonstra quando a cidade é cenário de algumas das suas maiores obras ficcionais.

O lançamento se dá pela descoberta da crônica que fecha o ciclo das The London Scene, e que é o último texto da coletânea. Escritos entre os anos de 1931 e 1932, as cenas de londres são rápidos textos que descrevem os passeios de Virginia Woolf por Londres. O olhar da autora é fotográfico e cada texto guarda texturas únicas de como Woolf percebia aquela cidade inglesa do começo do século passado. Continuar a ler

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A Beleza é Uma Ferida – Eka Kurniawan

Eka Kurniawan é um escritor indonésio que tem conseguido romper as fronteiras da sua língua e do seu país. Foi o primeiro indonésio a concorrer o Man Booker International Prize. Seu trabalho mais famoso,  A Beleza é Uma Ferida chega enfim em terras tupiniquins e é o primeiro romance indonésio a ser publicado no Brasil. A tradução foi indireta, veio do inglês — The Beauty Is a Wound — e foi feita por Clóvis Marques para o selo José Olympio.

Comparações são sempre perigosas, porque elas exigem bom tino de percepção, de intersseção e muitas vezes ela falham em perceber nuances mais tangentes entre as obras comparadas e se tornam apenas tentativas de fazer uma obra brilhar com a luz da outra. A Beleza é Uma Ferida tem sido comparada, erroneamente, com Cem Anos de Solidão de Gabriel García Marquéz. Há pontos que se encontram, mas as obras estão em pólos narrativos distintos e se calcam em sustentações alegóricas completamente divergentes. Continuar a ler

A Filha Perdida – Elena Ferrante

A maternidade talvez seja o mais avassalador dos elementos social de desestruturação de um indivíduo, de supressão do que lhe constitui. Aos moldes da compreensão sedimentada do que é ser mãe, na sua base, está a anulação. Nisso se fundamenta a ideia de que, após dar a luz, a mulher passa a ser uma função e não mais uma pessoa. Refletir, sem as amarras românticas, sobre a maternidade configura-se num desafio colossal, independente de qual ponto de vista você parta para chegar às suas conclusões.

A escritora italiana Elena Ferrante tem, com a sua obra, posicionado o feminino em perspectiva bastante realistas. É a partir das suas reflexões ficcionalizadas, que tem dado voz aos mais subcutâneos pensamentos e desejos do feminino. Não é exagero afirmar que, na literatura contemporânea, Ferrante é responsável por um novo viço narrativo e por dar às personagens femininas muito mais força que em décadas passadas. E isso não é diferente nesse A filha perdida na tradução de Marcello Lino, publicado no Brasil pela Intrínseca. Continuar a ler

100 anos de literatura holandesa: uma entrevista com Daniel Dago

A literatura holandesa ainda tem pouca guarida em terras brasileiras. É uma língua com poucos tradutores, e com autores que raramente são traduzidos em qualquer idioma. Expandir os horizontes de alcance da literatura produzida na terra dos batavos tem se configurado num desafio hercúleo. Desafio esse que o tradutor Daniel Dago assumiu como missão de vida. O tradutor lança agora, pela Zouk, a edição de Contos Holandeses (1839-1939) que introduz diversos nomes fundamentais da literatura da Holanda aos leitores brasileiros.

Dago conversou com o blog um pouco sobre o processo de produção da antologia, sobre os ossos do seu ofício, seus projetos futuros, mercado do livro no Brasil e dos colegas de trabalho que admira. Confira a entrevista: Continuar a ler

Uma noite na praia — Elena Ferrante

Celina é a boneca preferida de Mati. É também a protagonista que narra em primeira pessoa essa curta história de abandono. Mati, como toda criança, tem um brinquedo preferido. O dela, é a boneca Celina, que carrega para todo lugar e com quem estabelece uma ligação íntima. Como é habitual, numa das idas da família à praia, Mati leva Celina a tira-colo. Mas a rotina de diversão das duas é quebrada quando o pai de Mati chega com um gato na cena e dá para a garota de presente. É aí que o cenário muda. Celina, até então, a favorita de Mati, de repente se vê posta de lado. É esquecida, abandonada.

Único trabalho, conhecido até agora, infanto-juvenil da autora italiana Elena Ferrante, Uma noite na praia (Intríseca, tradução de Marcello Lino e ilustrado pela Mara Cerri) é o tipo de obra que você vai querer evitar que o seu filho leia antes dos 18 anos. Não é necessariamente uma leitura leve, porém para uma obra direcionada ao público infantil, está longe de ser uma platitude doce e deglutível, o que não implica numa depreciação das qualidades que Ferrante consegue imprimir no livro. É uma leitura que foge da abordagem óbvia e puxa para reflexões pouco infantis, num ambiente sombrio, triste, e melancólico. A escrita não perde o viço, justo por estar atravessada pela limpidez de palavras simples, mais diretas — porque, para todos os efeitos, a obra é para crianças. Continuar a ler