A Invenção de Morel — Adolfo Bioy Casares

A ideia da sua vida se repetindo inúmeras vezes é incômoda para você? O filósofo alemão Nietzsche imaginou essa cena da seguinte forma: um anjo/demônio surge e lhe anuncia que sua vida, exatamente como ela aconteceu até aquele momento, irá se repetir ad infinitum com todos os percalços, acertos e erros, felicidades e tristezas. Você teria coragem de encarar sua existência, da exata forma que ela tem hoje, eternamente?

Outro pensador que ocupou-se com isso de pensar o real e a vida, a existência como projeção de algo que ela pode não ser foi o grego Platão que formulou a ideia do mundo ideal — ou mundo das ideias —, onde tudo que vemos aqui existe de forma perfeita e plena em outro lugar. Esse mundo onde vemos e tocamos as coisas, ele é apenas uma cópia mal formulada do mundo ideal, é uma versão deformada dessa realidade perfeita. A grosso modo seria como se morássemos numa Matrix programada para emular uma realidade que não é em si, é somente uma cópia. Uma cópia sem originalidade — com os riscos que podemos adotar em pensar o que diabos é algo original. Continuar a ler

Dias de Abandono – Elena Ferrante

dias-de-abandono-elena-ferrante-post“Uma tarde de abril, logo após o almoço meu marido me comunicou que queria me deixar.” É assim que Olga anuncia a determinação de Mario, seu marido por quinze anos, em lhe abandonar. A notícia chega inesperada, repentina em meio aos eventos corriqueiros da casa — as crianças brigando, o cachorro dormindo ao lado do aquecedor. Olga fica paralisada e assim é deixada por seu agora ex-marido, como uma “pedra ao lado da pia”.

Esse choque que atinge Olga não lhe atravessa somente no momento inicial da ruptura do seu casamento. Rupturas como essas não se findam de forma tão abrupta, elas perpassam em demorado tempo as entranhas mentais. E foi como Olga ficou, nesse primeiro momento: tentando reexaminar, numa visão em retrospectiva do relacionamento, quais os sinais indicados de uma crise que não foram percebidos. Esse sentimento se apossa de Olga que, de uma hora para outra, vê o outro lado da cama vazio, e se vê com o desafio de cuidar sozinha de uma casa, duas crianças e um cachorro. Continuar a ler

a máquina de fazer espanhóis – valter hugo mãe

corpomaquinadefazerespanhoisA língua, sob a batuta do trabalho de grandes escritores, é capaz de tomar formas insuspeitadas; capaz de alterar a perspectiva de um fato, de narrar, sob o verniz da excelência, uma história e fazer dela um marco, um acontecimento. É o poder da criação narrativa. Narrar, em ficção, é essa capacidade de transpor os limites da realidade usando a própria realidade (ou não) como matéria prima; é usar as forças do real para compor o que dele foge. Nesse campo se divide os bons e maus narradores, aqueles que detém para si, de independentes formas, o poder da narrativa — dominando-a ou não. E essa ação é acertadamente chamada de “poder” porque nela há profundas capacidades de mudanças naquele que recebe sua influência. O poder, essa potência de domínio de uma linguagem — seja ela política, ficcional, institucional ou religiosa, ou mesmo uma mescla de todas as anteriores juntas — que exerce no outro uma espécie de controle — emocional, comportamental ou reflexivo, ou também a junção de todas essas numa só —, consensual ou não. Continuar a ler